Metamorfose
Sentada na cama, passando o batom vermelho, em frente ao espelho do quarto, Núria analisava a própria face. Havia chorado a noite toda: um choro por si mesma e por tudo o que vinha se tornando, mas ainda assim não sentia pena da mulher que agora via. Reconhecia-se forte o suficiente para resistir aquele tropeço. Deixava que as lágrimas lhe inundassem o rosto – sem culpa – e se prometia que, ao secarem, não voltaria a derramá-las por aquele homem. Relembrava, para isto, a razão pela qual se desfazia: havia outra mulher. Naquela casa, fazendo carinho nele que, depois de tempos, fora o único capaz de tornar desperto o seu coração. Na cama em que se deitara, ela provavelmente também esteve, arrancando sorrisos, suspiros e suor. Apesar de surpreendida pela realidade, Núria sentia nojo de si. Desejava mergulhar em um poço cristalino e arrancar a sujeira que percebia incrustada em sua pele. Queria retirar, milímetro a milímetro, cada toque, cada beijo, a respiração do outro que n...