(Des)gosto
Acontece e é assim que se aprende, menina. Ellie descia correndo as escadas refletindo sobre o peso que é sentir. Esse sentir doído que atravessa o peito e enche a garganta de nó. Esse sentir errado que, em vez de tornar leve, transforma em peso, em pesar. Ela saía de mais uma reunião, o cérebro fervilhando, a garganta ardendo, os olhos em chamas, a alma em frangalhos. Não fora fácil vestir-se de racionalidade sabendo que lá estava ele a observá-la fixamente. O seu olhar, mais penetrante do que um punhal, soubera decifrar cada gesto, cada falácia: desde o sorriso forçado à imensa falta de concentração. Pensar nele mexia com seu íntimo. Ainda não era capaz de imaginá-lo distante como de fato era agora, um estranho em meio a tantos outros. Ainda não havia apagado a imagem dele sorrindo para ela, piscando de um modo maroto, ou das mãos sedentas buscando o seu corpo durante a noite. Não havia se esquecido dos afagos no cabelo, da risada escandalosa, do jeito observador, da b...