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Mostrando postagens de 2015

Empodere-se

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A menina tem 12 anos. Pouco mais de uma década. Poderia ser sua filha, sua irmã, sua aluna, sobrinha, amiga, prima. Leu absurdos nas redes sociais, homens propagando uma cultura de abuso que ultrapassa os limites do tempo, mas, infelizmente, ela não é a única. Ana tinha onze anos quando sofreu o primeiro assédio. Na mercearia perto de casa, um homem apalpou o seu corpo enquanto ela esperava os chicletes que havia pedido. Pela primeira vez sentiu nojo de si e medo do que poderia ocorrer. Culpou-se por estar de short e não de calça jeans. Clara. Nove anos. Foi violentada pelo tio. Ele começou pegando em suas partes íntimas quando a sentava em seu colo. Acabou em estupro. Ela foi considerada mentirosa pela família. Nunca puniram o culpado. Sentiu-se sozinha, sem apoio, indefesa. Só depois de muito tempo entendeu o que aconteceu. Ana. Vinte anos. Foi estuprada pelo namorado, que não acreditou quando ela disse que era virgem. Ele tapou a boca da jovem e continuou, ignorando a...

Espécie em extinção

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Créditos: Khalid Alwaih / Reprodução: Jornal GGN De repente, é como se uma venda tivesse sido retirada dos nossos olhos. Você, Aylan, vítima de uma guerra que já dura quatro anos, de um partido que comanda há quase cinquenta, de um país marcado por intensas invasões, demarcações de território, exploração de bens naturais e de um mundo extremamente cruel e desumano, fez um nó se apertar em nossa garganta. Seu corpo pequenino, na praia e já sem vida, tornou-se emblema da dor, do desespero e do sofrimento do seu povo, que padece na miséria, que tenta encontrar abrigo, que é tratado como bicho e morre encurralado, sem esperança. Seu corpo à beira do mar nos faz refletir sobre o quanto temos errado. Somos um projeto fracassado, pequeno.  Assim como você, mais de 140 mil compatriotas já morreram. Entre eles, cerca de 7 mil crianças tiveram sonhos furtados e futuros usurpados, pois não há amanhã para quem é obrigado a trocar canções infantis por sons de balas. Não há alegr...

Seja

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Moça, você não tem que ser magra. Nem polida. Nem ter o cabelo liso, andar maquiada, usar salto alto. Não é necessário que seja doce e meiga. Pode beber o que quiser, gargalhar e falar palavrão. Não precisa se casar se não quiser e nem ser mãe. Não tem que esperar o homem que mudará o seu destino tal qual um conto de fadas. Deve usar a roupa que desejar, sem se preocupar com o julgamento alheio. O tamanho do seu short, vestido ou decote não significa caráter e nem justifica a ignorância de muitos. Aliás, se não gostar de roupas curtas, tudo bem, mas respeite as gurias que gostam. Elas não são putas, vadias e nem estão pedindo para serem assediadas ou violentadas. Juntas vocês serão bem mais fortes, creia no que digo. Compreenda que não há pecado em gostar de sexo. Você não é errada por transar mais do que a sua amiga. Não é suja por conhecer o seu corpo e se permitir prazer. Teu corpo somente a ti pertence, moça. E acredite: ele é belo. Os padrões veiculados pela grande m...

Tão contrário a si

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Clara entrou na sala a tempo de ouvir o amigo confessar que não sabia mais se envolver, que fugia ao menor sinal de apego e aproximação. Para ela, que se preservava há anos, escutar aquela frase fez seu coração sossegar. Não estava descrente sozinha. Havia tanta gente naquele Titanic amoroso que ela mal podia mensurar. Tanta gente de coração dilacerado, precisando recomeçar e sem saber ao certo como. Gente de confiança despedaçada e de fé traída, que jurou nunca mais se apaixonar.  Gente que sente medo se o telefone toca no dia seguinte, se uma mensagem é recebida. Que desaprendeu, pouco a pouco, a ser leve e se deixar levar pelo encanto da paixão. Assim, reúnem seus cacos, trapos e caminham. Oferecem o mínimo que podem: um beijo na balada, um puxão de cabelo e talvez uma boa noite de sexo. Sorrisos passageiros, entrega rasa. Mais do que isso? Nem pensar.  Essas pessoas lotam as redes sociais e assumem a sua realização por serem fortes. Resistentes. Racionais....

Amar: construir, desconstruir e reconstruir

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Olhando ao redor, era tudo incerteza. Havia carregado consigo, por anos a fio, a convicção de ser suficiente a si: a paz que cultivava, seus livros, poemas e canções, a vida plena e boa. Ainda jovem, aprendera a valorizar a própria companhia. Nada de obrigações, satisfações ou desencantos. Seu coração, coisa de aço, estava firme e blindado. Perder essa segurança era abdicar a tudo o que havia cultivado. Gloriava-se por não se envolver. Vivia relações rasas e passageiras, de modo que a distância fosse mantida. Apaixonar-se significaria estar fraca, repetia como um mantra. A personalidade firme, as decisões irrevogáveis e a fortaleza que a envolveram, contudo, trouxeram mais feridas do que jamais imaginara. Ao renunciar às obrigações, desistira também dos pequenos prazeres que isto envolvia: dormir abraçado, dançar na chuva, tomar sorvete em dias calorosos, mensagens inesperadas, frio na barriga ao encontrar o ser amado, o coração feliz por imaginar um novo início. Conse...

Colecionadora de memórias

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Observando o horizonte, Núria refletia sobre o quanto havia acumulado histórias, essas que constituem o que somos, nos moldam, revelam e transformam. Em sua cabeça, uma longa trajetória – tal como flashes – insistia em passar. Via com clareza todos os caminhos que a levaram até ali, bem como as decisões que precisou tomar. Vivia se protegendo: do mundo, das pessoas, de si mesma e de sua predileção por frustrações. Cotidianamente se revestia de várias camadas de defesa que a faziam prosseguir. A verdade, porém, é que se sentia exausta, tinha o coração cansado. Estava farta de confiar nas pessoas, mas muito mais de aceitar o pouco que lhe ofereciam e de se submeter a situações que não agregavam valor. Apenas cicatrizes. Cansada das amizades rasas, da humanidade que externava o que possuía de pior, das vezes em que havia aceitado ser alguém tão distante de quem realmente era. Sentia-se estrangeira nesse mundo de sentimentos e valores invertidos. Desejava se livrar dos danos...

Bitches

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– Não, mano. Aquela mina é muito vadia. Laís cruzou a rua no exato momento em que os homens conversavam e passou boa parte do dia refletindo sobre o termo empregado por um deles. Até bem pouco tempo, talvez considerasse a possibilidade de se dirigir a algumas mulheres da mesma forma, com o intuito de depreciá-las, tal qual eles fizeram. Contudo, havia descoberto recentemente que também pertencia a essa classe.  A lógica para a compreensão é bem simples: vadias abandonaram o molde imposto pela sociedade. Vestem-se como querem, respondem a cantadas toscas, comportam-se como acham que devem, assumem a responsabilidade por seus atos, recusam-se a ser apenas uma costela, lutam por igualdade. Vadias pensam fora da caixinha. Romperam uma linha de raciocínio predominante há anos: a de que a mulher foi criada para ser uma extensão do  homem, dependente dele para existir. Vadias têm personalidade, desejos e vontades próprias. Ninguém lhes diz o que fazer ou como se s...

Reabastecer

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Pensando na vida, em tudo o que ficou para trás e naquilo que sequer existiu, Laila permitiu-se fraquejar, pois nem sempre é possível se manter firme. Sendo assim, abraçou fortemente o travesseiro e desaguou.  Uma a uma, as lágrimas jorravam e esvaziavam-na. Representavam a intensidade que carregava, os sonhos naufragados, o fato de ter se perdido no caminho e de estar tão distante do que imaginara um dia. O choro marcava os sonhos abandonados, os desejos ocultos, guardados a sete chaves, e todos os fantasmas com os quais convivia. O fato é que ela aguentava: o mau humor do chefe, a cobrança dos amigos, os sonhos adiados, a crise financeira, a responsabilidade em seus ombros, o coração cansado, as dúvidas sobre o destino – tão incerto quanto seus pensamentos. Carregava consigo todas as impossibilidades e, vez ou outra, desabava em lágrimas, para que pudesse se esvaziar de tanta intensidade e retomar a trilha. Tinha medo de estagnar, de desperdiçar o tempo, mas muito al...

Todas numa só

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Sou mãe, filha, mulher, amante, amiga. Puta e santa. Posso ser seu colo, abrigo e conforto, mas também a tempestade que lhe tira o chão, confunde crenças e abala estruturas. Aqui e agora, posso querer o seu amor ou o seu tesão – sabendo que se tratam de coisas distintas. Numa noite fria, quem sabe, dormir ao seu lado e apenas sentir seus braços a me apertar pela cintura, ou me perder no seu gozo, no seu desejo, fluidos, barba e suor. Sou tantas que você não conseguiria definir. Metamorfose ambulante, tal qual disse o gênio. Transformando e sendo transformada diariamente, mantendo ou reinventando caminhos, tentando aprender com os erros, buscando o crescimento. Sou secretária, dançarina, estudante, professora, confidente, escritora, ouvinte, mulher. Sou muitas, sou tantas, sou todas. Múltipla e única. Portanto, pegue uma taça, sente-se, beba o vinho, dispa-se dos seus preconceitos e esteja certo: ainda há muito a descobrir. "Só você... Que nem você ninguém mais...

Amar? Só quando convém

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Olhando ao redor, assusta o fato de os homens estarem envoltos em tanto ódio. Creio que muitos não estudaram história ou, se o fizeram um dia, esqueceram-se do quanto a intolerância pode nos conduzir por um terreno instável, perigoso e obscuro. Não somos pares nem iguais, muito menos humanos. Disseminamos ódio e deliberamos sobre quem deve ser salvo e, em contrapartida, sobre quem será condenado – não ao fogo eterno – pois fazemos questão de que o calvário se inicie aqui. Sabe, Senhor, têm sido dias difíceis. Os mandamentos de amor, respeito, igualdade e fraternidade pregados há mais de dois mil anos foram transformados em conceitos distantes e inacessíveis. Atingi-los, conforme quem detém o poder sacro nas mãos, requer atender a muitas exigências. De acordo com eles, não basta a cada um  pegar a sua cruz, abandonar a si mesmo e o seguir. S im, Senhor, eles falam em seu nome e, em muitos casos, não é a sua voz que ouço. Hoje os símbolos são mais sagrados do que a prá...

Metamorfose

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Sentada na cama, passando o batom vermelho, em frente ao espelho do quarto, Núria analisava a própria face. Havia chorado a noite toda: um choro por si mesma e por tudo o que vinha se tornando, mas ainda assim não sentia pena da mulher que agora via. Reconhecia-se forte o suficiente para resistir aquele tropeço. Deixava que as lágrimas lhe inundassem o rosto – sem culpa – e se prometia que, ao secarem, não voltaria a derramá-las por aquele homem. Relembrava, para isto, a razão pela qual se desfazia: havia outra mulher. Naquela casa, fazendo carinho nele que, depois de tempos, fora o único capaz de tornar desperto o seu coração. Na cama em que se deitara, ela provavelmente também esteve, arrancando sorrisos, suspiros e suor. Apesar de surpreendida pela realidade, Núria sentia nojo de si. Desejava mergulhar em um poço cristalino e arrancar a sujeira que percebia incrustada em sua pele. Queria retirar, milímetro a milímetro, cada toque, cada beijo, a respiração do outro que n...

Dissimulada

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Jéssica vai à igreja. É doce, meiga, delicada, religiosa. Uma mulher de verdade, os puritanos diriam. Não usa decotes, não fala palavrões, tem horror às mulheres consideradas fáceis, repudia quem maltrata os animaizinhos, gosta de usar rosa, de brincar com criancinhas indefesas, de ser polida, educada e amável por onde passa. Não bebe, é contida. Não beija de língua, não permite amassos, pretende casar virgem... Pelo menos é nisso que ela quer que acreditem. Não admite excessos: diante dos outros, seus atos são comedidos, calculados, corretos. Observando-a a fundo, entretanto, percebe-se a farsa ela representa. Não ingere bebidas alcoólicas, mas seus lábios destilam veneno. Não fala palavrões, contudo, sua alma está cheia de maldade. Faz-se de recatada, porém, envolveu-se com o namorado de uma "irmã" em um retiro espiritual e já fez loucuras na cama com o ex-namorado, mesmo afirmando o contrário.  Diz que pretende ter um namoro com propósito e, sem poupar esforços...

Aguente: ela te esqueceu

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Depois de anos, reencontraram-se. Um encontro fruto do acaso, do destino, este exímio mestre em pregar peças. Dessa vez, contudo, ela estava bem. Segura de si, sorriso no rosto, coração em paz. Liberta. Juan assustou-se: aquela já não era a mesma mulher com quem convivera. Ela agora trazia uma certeza no olhar, batom vermelho na boca e uma sensualidade em sua essência. Ele a avistou de longe. Ainda reconhecia o caminhar, as jogadas de cabelo e o rebolado que, antigamente, ela afirmava não possuir. Algo, porém, mudara: não havia nela resquício da menina de antes. Olhando-a assim, ele não conseguia perceber nenhum traço da inocência e da doçura que eram tão características da mulher que ele deixara. Mulher... Juan nunca havia pensado nela daquela forma. Ela era um anjo, uma menina quando se conheceram. Com o passar do tempo, havia se transformado, é verdade, mas não abandonara a meiguice que a constituía. Ali, entretanto, era uma mulher que ele via. Dona de si e dos olhare...

Fera, bicho, anjo e mulher

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Ela o quis: o sorriso ao acordar, os dedos entrelaçados, a paz de um amor tranquilo. Pela primeira vez em anos, quis sossegar. Abandonar os corpos, as mãos sedentas, as almas vazias. E se entregar novamente sem pensar nos danos. Depois de muito penar, ela quis ter e ser paz. O desejo já não era essencial, tornaram-se cruciais os sorrisos, os olhares, a troca de afeto. Com o coração desperto, quis e tentou, ligou, insistiu. Olhou nos olhos, entregou o melhor abraço, foi sentimento.  Sendo inteira e intensa como de costume, deu o melhor de si, engoliu o orgulho, esqueceu a timidez, admitiu a saudade. Revelou a vontade de ficar. Sem precisar fugir no dia seguinte, sem rejeitar ligações e mensagens. Ficar. Aceitá-lo tal como era. Como resposta, porém, recebeu indiferença e descaso. Sentindo acender em si a velha chama, ela desistiu. Embelezou-se, emagreceu. Cansou. De ter ligações não retornadas, de chegar em casa sozinha e de pensar nele até que o sono viesse, de ver o...

Nostalgia

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Núria se lembrava daquele que, nos últimos tempos, fora o único capaz de fazer o seu coração acordar. Sentada em sua cama, ela o via passear livremente pelo quarto enquanto falava sobre música ou sobre como amava organizar cada espaço da casa. Pressentia que a gargalhada dele ainda pairava no ar, que o cheiro dele estava impregnado em sua pele, que a voz – grave e baixa – ainda era audível ao pé ouvido... E sorria, enquanto via a si mesma assistindo filme deitada naquele peito, ou sobre como observava a t e n t a m e n t e cada palavra por ele pronunciada, ao passo que se deliciava com o carinho que ele fazia em seu cabelo. Bem mais do que ser feliz, estar com ele fazia com que Núria ficasse em paz. Com Juan, sabe-se lá por qual razão, o peito decidira se abrir. Ali ela não precisava das inúmeras faces que havia criado para sobreviver entre um cafajeste e outro. Com ele, ela se via tal qual sempre fora: toda coração. O medo que sentia provinha exatamente disto: a vulnerabil...

Trilhar

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A verdade é que a gente sobrevive. Mesmo que haja inflação, corrupção e crise econômica. Ainda que o relacionamento termine, que o horário de verão chegue, que o chefe brigue, que o namorado se atrase, que o amanhã seja incerto, que a grana acabe. A gente resiste. Mesmo que os problemas sejam enormes, que as injustiças desabrochem, que o amor pareça não durar. Cai, se rala inteiro, mas recomeça. Erra e magoa. Confia, se fere, desacredita, se fecha, mas retoma a crença e se permite. Renasce. A gente comemora. Mesmo que os sonhos pareçam distantes, que o emprego não seja o desejado, que falte realizar o curso esperado, o casamento sonhado ou que a viagem inesquecível não tenha ocorrido. Ama, ainda que capenga e sem saber ao certo como. Sonha e se machuca e renega a vida e jura nunca mais tentar. Mas tenta. A gente segue acreditando ser possível, mesmo que as batalhas não findem, pois o tecido das vitórias é construído por meio das lutas travadas no caminho. "Voc...

Sobre o despertar

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Não acordes agora, que observá-lo dormir tem sido o meu hobby predileto. Acreditar que estás realmente ali, ao lado, enche-me de uma alegria infinita. Sorrio e aprecio teu corpo, sinto a tua respiração. Mantenho-me imóvel, como que para eternizar este instante, talvez para tentar congelar os teus braços que permanecem me apertando firme, enquanto dormes pesado e profundo. Perco o sono, é verdade. Gravando teus traços, mergulhada em teu abraço, desejando que não seja apenas um sonho bom.  Permaneço assim, a fitá-lo. Vou confessando, em silêncio, todo o bem que me fazes e agradecendo ao Universo pela leveza que agora trago aqui dentro.  Acordas. Todos os pensamentos fogem ao passo que sorris e te deitas no meu abraço. Acaricio o teu cabelo e sinto novamente a diferença que me acalma, assusta, comove e cala. Não levantes, fique um pouco mais. Deixe-me ouvir teu coração compassado encostado no meu, enquanto falamos sobre música, educação, política, ou sobre o fato de e...

Fluir

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Preciso do mar, Da força Revigorante, Da beleza Na imensidão. Do barulho que ele faz Quando nas pedras Bate Da calmaria noturna Quando a areia Beija. Preciso percorrer o mar. Irromper em suas águas, Lavar a alma, Livrar das mágoas. Mar que leva, Que é leve. Mar que limpa, Mar que salva. Mar de inquietações, Abismos, Bonanças, Rebentações. Preciso, por fim, fazer-me mar. Romper barreiras, Desabrochar para a vida, Converter desassossegos em calmaria, Exalar amor. "Não adianta fugir nem mentir  Pra si mesmo agora. Há tanta vida lá fora... Aqui dentro, sempre. Como uma onda no mar."

Be here

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O mirante, o vento batendo no rosto e a mente trabalhando sem cessar. O porvir assustava, mas esse é apenas fruto das escolhas de hoje. O presente é que tornava Clarice apreensiva: o desejo de sorver todas as urgências momentâneas, de proferir as palavras que ficaram camufladas, de desatar os nós. Muito passava enquanto ela, indecisa que era, traçava planos e tentava consertar o que não sabia ao certo. O problema é que o tempo arrasta as possibilidades segundo a segundo e traz a incerteza do amanhã. Leva consigo o que ela imaginava antes de dormir, o que programava na hora do cappuccino. Ele carregava, inclusive, todas as conjecturas que ela fazia agora antes mesmo que pudessem ser escritas. Dinâmico e vivo, não espera pelo dia seguinte. Enquanto esperava acontecer, corria o risco de ver o depois desfeito. De ter, escorrendo pelas mãos, as ideias que vinha cultivando ao longo dos dias: como abordar, quais palavras utilizar, o momento certo para isso... Clarice não sabia ...