Sobre o despertar


Não acordes agora, que observá-lo dormir tem sido o meu hobby predileto. Acreditar que estás realmente ali, ao lado, enche-me de uma alegria infinita. Sorrio e aprecio teu corpo, sinto a tua respiração. Mantenho-me imóvel, como que para eternizar este instante, talvez para tentar congelar os teus braços que permanecem me apertando firme, enquanto dormes pesado e profundo.
Perco o sono, é verdade. Gravando teus traços, mergulhada em teu abraço, desejando que não seja apenas um sonho bom. 
Permaneço assim, a fitá-lo. Vou confessando, em silêncio, todo o bem que me fazes e agradecendo ao Universo pela leveza que agora trago aqui dentro. 
Acordas. Todos os pensamentos fogem ao passo que sorris e te deitas no meu abraço. Acaricio o teu cabelo e sinto novamente a diferença que me acalma, assusta, comove e cala.
Não levantes, fique um pouco mais. Deixe-me ouvir teu coração compassado encostado no meu, enquanto falamos sobre música, educação, política, ou sobre o fato de eu ser péssima quando o assunto é filme. A sua gargalhada inunda o quarto, a rua, a minha vida. Sem deixá-lo perceber isso, continuo rindo e esqueço de que o sol já está alto, de que há um mundo inteiro fora do quarto.
Ganho vida, é verdade. Acalmo a alma, devolvo-me a mim. É um sonho bom.
Quem sabe isto dure horas, dias, meses, anos. Quem sabe acabe amanhã.
Sem me preocupar em nomear este momento, tranquilizo-me sabendo que há muito tempo o meu coração não batia assim. Sem pressa, respiro o teu cheiro, aconchego-me no teu peito e me permito admirá-lo um pouco mais, ainda que de olhos fechados.  




"E quando eu durmo no seu colo,
Você me faz sentir de novo
O que eu já não sentia mais."

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