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Mostrando postagens de 2011

Cold memories

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"Though winds of change Are throwing wild and free You ain't seen nothing like me yet." (Adele) Era somente mais uma noite de inverno: absurdamente fria. Embora o vento gélido estivesse no fim e fosse possível notar as mudanças que em breve seriam trazidas pela primavera, era visível o estrago que o gelo causara. Jardins congelados, flores murchas – que provavelmente ressurgiriam esplendorosas– espalhadas pelo quintal... Pássaros migravam, depois retornavam e, enquanto isso, Núria hibernava. Entorpecida em sua toca, entre sonhos surreais e promessas perdidas. Entre o limiar do real e o imaginário. Ausente de si mesma, imergida em lembranças, aguardava um alívio permanente, algo que dissipasse o frio excruciante que sentia. E assim mergulhava nas ideias guardadas, vagarosamente adentrava no mais profundo daquilo que jamais ousara admitir. Em sua mente, a mesma lembrança: caminhava por estradas até chegar ao local do qual jamais esquecera. Em instantes, via-se ...

Sobre águas e brasas

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Tudo continuava igual, embora tão diferente. Tão real, mesmo que fosse inacreditável. Uma infinidade de mudanças e, ainda assim, a equivalência permanecia. Lá fora chovia. Era primavera, mas não se viam flores. Núria estava na janela, absorta em pensamentos, tentando lembrar quando fora a última vez que sorrira verdadeiramente, tal como estampava o porta-retrato propositalmente esquecido na mesa de cabeceira, junto com o seu passado. Não sabia há quanto tempo estava a observar a água cair do céu, molhar as árvores e enchê-las de vida, segundos antes de vir ao chão e escorrer pela rua deserta. Sentia vontade de sair e de se deixar renovar, assim como as folhas. De sentir a água molhando-lhe o corpo e a alma, purificando-lhe o coração. Uma limpeza completa – pensou – enquanto se afundava novamente em ideias e lembranças. De repente, algo lhe assustou e lhe prendeu a atenção: duas crianças que chegavam da escola pararam na rua e começaram a brincar na chuva. Depois, mais duas se a...

Primaveras

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São tantas primaveras... Primaveras, no plural mesmo. Para ser exata, vinte e seis. Um enredo de histórias, conquistas, erros, aprendizados, amor, amor e amor. Por Deus, pela vida, pela família, pelos amigos, pela profissão... Vinte e seis anos se passaram desde o dia 27/09/1985. Da menina que acreditava em finais felizes, resta a esperança de que isso exista sim. Não do jeito ilusório que me ensinaram, mas de um modo real, concreto, construído diariamente: um início feliz. A garota idealista e sonhadora que esperava ansiosamente pelo futuro o vê chegar devagar, pouco a pouco instalar as bagagens, apresentar as lições, recolher os medos e as incertezas passadas e listar tantos outros (que compõem esse edifício inacabado). Várias coisas vividas até aqui e muitas por viver. Muitos sonhos orbitam essa mente, afinal, sem eles não se pode prosseguir. É preciso ter objetivos e lutar para que eles se realizem. Olho para mim aos vinte e seis anos e percebo o quanto ainda preciso aprende...

Invólucro

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Para os outros, abria um leque de discursos com conselhos amorosos: resoluções, mudança de postura, uma cartilha inteira para indicar o que deveria ou não ser feito. Como se a sua vida amorosa fosse perfeita. Como se o coração não lhe apertasse tanto o peito a ponto de sufocar os outros órgãos. Naquelas horas, parecia demasiadamente simples deliberar sobre o que quer que fosse: não era a sua vida, não eram as suas fragilidades expostas, o seu medo não estava envolvido. Não havia mãos e rostos e cabelos e afagos e desejos e camas quentes, abraços e beijos. Apenas situações e sobre isso era fácil decidir. Refaça sua vida, redescubra-se, retome as rédeas da sua história de cabeça erguida, não desanime, prossiga. Um vocabulário preparado para animar a qualquer um. Contudo, sabia bem não ser assim. Conhecia aquela dor, o medo de ir embora, embora não transparecesse mais. Havia se treinado para isso: esboçar sorrisos que internamente lhe arrancavam pedaços, preocupar-se com sofrimento a...

Imaginário

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Era só mais um sonho. Desses que, quando passam, povoam o imaginário com recordações e nostalgia. Em um devaneio, lá estava: uma figura enigmática, enfática, uma falácia. Estava lá, na lembrança mais remota. Seu olhar, chama que aquecia: perigoso e real. Talvez seja tarefa dos sonhos resgatar ilusões abandonadas, miragens que em algum momento foram dribladas no deserto, após um gole saudável de razão. Não pretendia querer, mas intensamente o fazia. Em seus pensamentos ocultos, nos desejos desconstruídos, nas reconstruções e situações cotidianas. Nos abraços alheios, nos sorrisos cativantes, nos possíveis papos interessantes, nas diversas hipóteses pensadas e sufocadas depois pela consciência – sábia e impiedosa – que não se permite mais ser dominada. Entretanto, desejava retroceder, redescobrir esplendores perdidos, reencontrar sensações, emoções. Ansiava por uma dose mínima daquela bebida inebriante, por meia hora em que conseguisse recuar no tempo, embriagando-se naquele doce, f...

Sobre a perda

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Tão difícil e complexa quanto a própria existência, a perda de alguém configura mais um mistério ainda não decifrado. Sua compreensão, por vezes, é algo impossível de alcançar, pois não se trata apenas de aceitar ou se conformar com a ausência permanente do ser amado, mas de entender o porquê de ter acontecido com ele. Não há explicação, não há motivos plausíveis, não se consegue chegar a uma razão que seja capaz de consolar ou fazer diminuir a dor. Aprendemos a lidar com quase todos os sentimentos que nos rodeiam, até mesmo os mais torpes, mas nos vemos impotentes perante a morte, exatamente porque ela arranca de nós as nossas certezas, convicções, sonhos, esperanças e desejos. Ela nos revela tal qual somos. Limitados. Nos proíbe de reaver aqueles que queremos bem. Com um sorriso sarcástico passa por nós, talvez querendo dizer que tivemos tempo suficiente para declarar o que sentíamos, para abraçar, para sermos melhores, mas preferimos nos ater às dificuldades cotidianas, aos prob...

Leviano

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Ele chega mansamente, com os melhores sorrisos, as piadas mais engraçadas, a maior atenção e compreensão, o melhor abraço, a possível sinceridade e verdade de um relacionamento duradouro. Possui arraigado em si a facilidade de fazer com que se sinta a melhor mulher do mundo, despeja sobre a sua monótona existência um vocabulário (pré-selecionado e preparado) que ressalta a sua importância e o modo no qual transformaste a vida dele. Ao seu lado, as noites serão melhores, as luas, maiores, as estrelas brilharão mais forte, o céu terá mais vigor e o sol, certamente, aquecerá bem mais. Ele substituirá a antiga solidão por um abraço quente, as lágrimas pelo sorriso; a tristeza, por inundações de palavras doces e ternas. Quem sabe, ele te apelide de meu anjo, minha linda, meu bem, minha querida, minha flor (entre infindáveis termos que poderiam ser citados) e diga que a sua presença na vida dele foi inesperada e totalmente providente. Que conseguiste derrubar o muro com o qual ele envolv...

Sobre a saudade

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Mãos suadas e trêmulas, frio no estômago, atitudes infantis e inexplicáveis, incerteza das próprias palavras, atos e sentimentos. Tudo isso por causa de lampejos de breves instantes que se tornaram incalculavelmente presentes. Nostálgicos. Ligações, carinho recíproco, mensagens, sorrisos e conversas; brigas intencionais, só para que houvesse, logo depois, uma reconciliação quase pacífica, entre elogios e críticas. Lembrança da verdade, do olhar sincero, das palavras sérias e surpreendentemente maduras, do acolhimento e do respeito. O que dizer então do abraço capaz de transformar emoções e paralisar instantes? Como esquecê-lo ou não sentir falta dele ao longo dos dias, se ele foi capaz de construir pontes em estradas abandonadas e ajudou a recuperar a paz há muito perdida? A tua passagem tem trilha sonora e até filme correspondente. Por vez, os personagens parecem conhecidos e a trama acontece como um deja vú , em que o enredo se assemelha a uma história já transmitida em outros ...

Acessível

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Fitavam-se incessantemente, num calar que, por si só, dizia muito. Na verdade, não precisavam de palavras para expressar o que ocorria, pois, maior do que elas, estava o sentimento, cravado no olhar e no abraço, perceptível aos olhos daqueles que necessitavam de explicações. Eles não careciam. Apenas sentiam. Estava ali, silencioso, tímido, mas pulsante, verdadeiro, vivo. Era desses sentimentos que estão em falta e que se reconhece rapidamente quando se depara com eles nos encontros raros. E estava lá, pedindo passagem, ao alcance dos dois, afirmando que naquele jardim ele poderia crescer, vigorar, amadurecer. Todavia, por mais que sua presença fosse notavél, também o era o medo, que minguava a oportunidade de vivenciar algo grandioso, como se podia perceber. Se por um lado reinava a incerteza, por outro notava-se a candidez de atitudes, o respeito e o carinho. E sem que percebessem, ele florescia... Em um campo sólido, bem cultivado, com água e adubos da melhor qualidade. E mes...

Banal

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Imagem by Bellz Large A humanidade reclama que sente um vazio inexplicável, que sofre, chora, sente falta de algo, sem saber o porquê e o que é. Nunca ouvi e li tanto sobre amor como nos últimos tempos. Esse genuíno, que brota do âmago do nosso ser e que não é passageiro, ao contrário, eterniza-se. Temos sentido falta de sentimentos verdadeiros, de reciprocidade, cumplicidade e entrega. Temos nos sentido sós. No entanto, o amor, motivo central de nossa busca por felicidade, tem sido banalizado e confundido com prazer carnal, com objeto descartável. Criamos uma cultura que vulgariza o que tem valor e substitui por outra, mais rentável, prazerosa e transitória, por assim dizer. Tem-se, portanto, a valorização do sexo (casual, instintivo) como algo que pode nos trazer a mesma sensação de completude e grandeza que o amor proporciona. Uma falácia que é absorvida por muitos e transformada em estilo de vida. Contudo, quanto mais se banaliza e se tenta substituir algo tão nobre, mais vaz...

Sonho

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Estamos nos despedindo, eu sei. Todos os indícios confirmam isso. É uma despedida onírica, dolorida, necessária. Vamos deixando para trás os sorrisos gratuitos, as histórias belas e más, os acampamentos, as noites estreladas, as viagens, os abraços apertados e dotados de significação. Te vejo vir em sonho para me dizer o que nunca conseguiu pessoalmente. E a sensação daquele abraço, do suspiro e do beijo foi tão palpável que acordo jurando ter sido real. A tristeza expressa de duas almas que sabem ser pertencentes uma à outra, mas que viram sua história findada por matérias inexperientes: é o que o seu suspiro me diz. Ainda não é fácil deixá-lo partir, principalmente das lembranças que o mantém vivo, mas sinto que o destino se encarregará de tal feito. Une apenas as nossas almas em sonho para que elas possam dizer o que a matéria lhes impediu. E, quem sabe, seja essa a oportunidade para externar o que calamos, ocultamos, deixamos perdido em alguma esquina da memória. A essa altur...

Dueto

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Ando por aí, Perdido entre um abraço e outro, Buscando olhares, Profanando o que antes fora tão sagrado. Louco, Aflito a saciar-me De prazeres mundanos, De corpos insanos Que tão pouco podem oferecer. Já em minh'alma está o desejo Do teu abraço caloroso, Da paz inebriante, Do olhar acolhedor. Na memória a lembrança De palavras tardias, De atitudes frias, Do que outrora tentava, já não tento. E nessa vida, Louca vida, dizia o poeta, Tudo se finda. E é assim que te vejo: Vazio, vago Vagando a esmo na escuridão do ser. Sujando-se na incerteza, Persistindo no erro, E afastando-se do que já houvera provado: O amor.

Eu sei que tu me amas.

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"Tu me cercaste em volta e puseste sobre mim a tua mão." (Salmo 139:5) Muito além da minha compreensão, imaginação ou percepção: Ele está comigo. Vela pelos meus sonhos, socorre-me e me ajuda a quebrar paradigmas, transpor barreiras e adversidades. Entende-me melhor do que eu mesma e me ama, apesar de tudo. Sempre comigo, mesmo quando não percebo. Ele está aqui: a postos, cuidando do meu coração, da minha existência. Crer n'Ele, ter uma relação que já foi citada aqui, nesse mesmo blog, independe de doutrinas. É uma questão de fé, de amor. É uma questão de olhar para dentro de si e enxergar a voz interna que orienta, direciona, que livra dos males. É olhar para a natureza, uma criação maravilhosa, e sentir que ali há, inegavelmente, a presença do Divino. É obter respostas aos apelos e ter a certeza de que Ele me ouve e atende aos meus chamados. Crer em Jesus é saber que há alguém que toma as suas dores para si, ama de forma incondicional e incompreensível. Alguém ...

Essencial

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Simplesmente o vejo em todos os lugares, ele que não me vê. Passa distraído por mim, travesso, inquieto, hiperativo. Salta de galho em galho, faz questão de aparecer e, repentinamente, quando tento agarrá-lo, ele foge. Deixa apenas lembranças, rastros. E se vai. Não importa o quão boa eu seja, o bem que deseje ou o quanto deseje possuí-lo. Ele não se importa. E, nesse meio-tempo, continua com suas peraltices, suas artimanhas e estratégias. Disfarça-se e passa despercebido, ou então está ali, visível, palpável, mas não o enxergamos ou valorizamos. Então, ele novamente se vai. Muitos outros tentam assumir a sua posição, mas são enganosos e acabam tão rápido quanto chegam. Entretanto, esses deixam marcas, cicatrizes que criam barreiras e que, por sua vez,instauram mecanismos de defesa e uma desconfiança permanente. E onde ele está nesse momento? Vigiando de algum lugar, bem escondido e, provavelmente, sorrindo da ansiedade que, de forma alguma, combina com ele. Esboça uma leve aproxima...

Discurso da colação de grau (Letras-Português)

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Como muitos sabem por causa do twitter e das outras redes sociais, a minha colação de grau foi ontem, momento inexplícável e único. E mesmo com todas as adversidades do dia, agradeço imensamente por tudo o que vivenciei ontem: a certeza de ter pessoas tão fiéis e tão lindas que será impossível descrever aqui o quanto as amo. Bom, mas o motivo desse post é dividir com vocês, aqui do blog, pessoas que também me acompanham e comentam o que escrevo, um pouco dessa minha vida real. Portanto, resolvi publicar o meu discurso como oradora da última turma de Letras da Faculdade LS. O que vocês lerão é a versão definitiva, com as devidas revisões, tal qual eu o pronunciei ontem. Espero que gostem. Ei-lo: Saúdo agora a senhora Diretora da faculdade LS, Madalena Guedes D’Ângelo, os paraninfos, os professores e as demais autoridades aqui presentes; e também os senhores pais e convidados. Prezados colegas, formandos do curso de licenciatura em Letras-Português: agradeço por terem confiado a mi...

Lágrimas e chuva

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São apenas lágrimas essas que escorrem pelo meu rosto. Ou talvez sejam mais do que isso.Eu sei que são. A chuva ainda cai, não mais lá fora, mas aqui dentro, progressiva e incessantemente. A ausência que salienta profundamente algumas marcas e reaviva dores até então esquecidas. Ausentes estão o encanto e a doçura, o reconhecimento, a importância. Como se essa existência não denotasse nada, nada que devesse ser memorado, nada que despertasse orgulho. Agora, aqui, apenas essas lágrimas. Pungentes, dilacerantes. De dor sim, mas com uma carga significativa muito maior: são lágrimas pelo vazio, pela falta. Um choro pela própria ausência em mim revestida.

(In)coerente

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Plantando flores no jardim da alma, dissipando tempestades e ventos contrários, velejando, remando, construindo, reconstruindo, deixando estar. Numa felicidade edificada diariamente, tijolo por tijolo, menos avassaladora. Com a calmaria e racionalidade necessárias para manter essa sensação, de modo que ela não seja passageira. Ainda assim, um sentimento inexato habita os pensamentos e confunde o coração: reticências o expressam melhor, já que não há definições cabíveis que consigam abarcá-lo, a fim de traduzir sua essência. São eternas suposições, interrogações inúmeras sobre o ser inacabado e (in)coerente que sempre fui. Modificações aqui, reformas acolá. E mais uma fênix ressurge. Entretanto, tantas reconstruções fazem rachaduras no projeto original e, às vezes, fendas enormes. Aí que entra a ausência de preenchimento,de completude, de reciprocidade. Intensidade devolvida da mesma maneira que é enviada. Por que não? Sem meio-termos, sem delongas, demoras, jogos de afinidade....

Reinventar

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Ouço a chuva lá fora. Incessante. Os pingos que caem harmoniosamente, num balé ensaiado, em que o Criador é o grande responsável pelo espetáculo. Depois de tudo, os raios solares invadem espaços e os inundam de energia e luz. Assim procede conosco. Ao findar da tempestade, surgem os raios de renascimento. E é de forma inesperada e inusitada que ocorre. Sem data, hora ou lugares marcados. Sem presciência, telefonemas, emails, nada. Apenas chega e, vagarosamente, começa a ganhar espaço. A partir de então, eis que esquecemos quantas tormentas já enfrentamos, atentando-nos apenas para o arco-íris que surgiu. Uma maneira que Deus encontrou para dizer que há sempre saída e renovação. A nós? Basta crer. A nossa capacidade de nos reinventar sempre que necessário é intrigante e interessante ao mesmo tempo. Abandonar barcos naufragados, reunir a bagagem, partir e recomeçar. Assim temos a oportunidade de reconstruir o que foi quebrado, de comparar atitudes que já tomamos, de aprender e de n...

Luz

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E assim, como uma luz que surge quando menos se espera, eis que vem. Traz confiança, paz de espírito, calmaria, força para prosseguir. Vem para acrescentar, somar alegrias e inspiração. Mansamente, sem a preocupação de acontecer depressa, pois o delicioso é experimentar cada sensação. Vem sim, bem se sabe, mas às vezes há dúvidas quanto ao tempo para chegar. Será que demora muito? Depois de tanto tempo, será que ainda encontra o caminho para o qual foi destinada? A verdade é que quando se desiste de buscá-la de forma insana, ela aparece na sua janela, bate à sua porta, pede abrigo e estadia. Travessa, geniosa, fugidia... Precisa de atenção especial, pois qualquer deslize cometido faz com que ela arrume sua bagagem e parta em busca de alguém que a mereça. Cantarolando sempre, brinca entre as flores, persegue borboletas nos jardins bem cuidados pelos quais transita livremente. E não tente segurá-la, ela não é adepta a prisões. Diria até que é claustrofóbica, não sobrevive em lugar...

Na contramão

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Parada, nostálgica, numa angústia lancinante. Assim ela se encontra. Refletindo sobre tudo o que perdeu (ou seria o que nunca teve?), ouvindo músicas que não ajudam, num anseio permanente de correr para longe dali. Entretanto,em seu íntimo, ela sabe que não há lugar onde ele não esteja. Em suas recordações remotas, nos lugares que frequentaram, ou até mesmo naqueles pelos quais só passaram, ele está. Em pé, acenando com aquele sorriso sempre vitorioso, implacável, inatingível. Como se quisesse dizer que todo o esforço é inútil, que ela não irá esquecê-lo por mais que tente (e acreditem que as tentativas são vastas e vãs). O mesmo sorriso enigmático estampado naquela foto velha, que a faz relembrar das noites estreladas, das gargalhadas gratuitas, do assunto infindável, do calor humano, do cheiro delicioso, do cabelo, das mãos, do beijo... Tudo o que tem lutado veemente para arrancar de si, a qualquer custo. Hoje já não existem noites como aquelas, a não ser as imortalizadas na memó...

Vileza

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Boca vil... Que a tantas mulheres enganou, Que a tantas beijou, Ludibriou e iludiu. Mas quantas ficaram em teu ser? Boca vil... Que a tantas mulheres sentiu, Mesmo sem senti-las realmente. E que a tantas amou, Mesmo desconhecendo esse sentimento. Será que a todas enganas? A todas elas juraste amor? Algum dia realmente tu o sentiste? Corpo vil... Tantas já abraçaste jurando calor, Mas o que tu deixaste a elas? Frio e solidão. Corpo vil... Que nunca conheceu ou conseguiu Amar de forma pura e nobre. Acreditas mesmo em tua essência? Se é que possuis uma. Alma vil. Pois ao jurar amor, Ao enganar e Fantasiar sobre algo tão sério, Provas que não amas e não respeitas Nem a ti mesmo. Enojas-me.