Imaginário
Era só mais um sonho. Desses que, quando passam, povoam o imaginário com recordações e nostalgia.
Em um devaneio, lá estava: uma figura enigmática, enfática, uma falácia. Estava lá, na lembrança mais remota. Seu olhar, chama que aquecia: perigoso e real.
Talvez seja tarefa dos sonhos resgatar ilusões abandonadas, miragens que em algum momento foram dribladas no deserto, após um gole saudável de razão.
Não pretendia querer, mas intensamente o fazia. Em seus pensamentos ocultos, nos desejos desconstruídos, nas reconstruções e situações cotidianas. Nos abraços alheios, nos sorrisos cativantes, nos possíveis papos interessantes, nas diversas hipóteses pensadas e sufocadas depois pela consciência – sábia e impiedosa – que não se permite mais ser dominada.
Entretanto, desejava retroceder, redescobrir esplendores perdidos, reencontrar sensações, emoções. Ansiava por uma dose mínima daquela bebida inebriante, por meia hora em que conseguisse recuar no tempo, embriagando-se naquele doce, fatídico e venenoso mel. Máquina do tempo que, por segundos que fossem, reavivasse a parte imóvel do seu existir: sentir novamente sangue circulando pelas veias, a adrenalina preenchendo órgãos vazios, ignotos, esquecidos.
Dormir em um ombro no qual não havia pressa de acordar. Sentir pulsar o coração, o tremor nas mãos, o calafrio, a ansiedade, vontade, angústia e saudade.
Era a sua fraqueza inexaurível. O rosto tatuado nos muros milimetricamente planejados e nas fortalezas edificadas era um alerta intermitente, uma ameaça constante. Uma ferida cravada no prédio central, nas paredes aparentemente seguras e frias.
Uma construção erguida entre sorrisos e lágrimas, anseio e realidade, entre fantasias e decepções, ternura e perdão... Solidificada pelas mágoas e prejudicada pela falta.
São tantas fendas que já não se pode mais contar. Infinitas e enormes. Abalaram a estrutura, destruíram andares, quebraram vidraças, trouxeram a desordem.
São tantas pretensões arruinadas que já não se deveria lembrar. Brutalmente interrompidas, inacabadas.
É apenas um sonho. Perdido, entre outros tantos.
Apenas mais uma vontade: inesperada, irracional.
Desatino desesperado, exasperado, explosivo. Ilusão.

Olá Inaí!
ResponderExcluirBem aventuradas és,por ter este talento para escrever.Magistral esta descrição do imaginário.A beleza contida nas frases,a força de suas impressões em cada palavra.Nossos olhos não passeiam por um texto,são conduzidos pela nossa alma,que neles se deleita plenamente.
Como deve se sentir intimamente, a cada texto que escreves ? Deves experimenta uma sensação plena,não de soberba,mas de quem consegue de si,produzir algo com tanta beleza.
Vc tem uma obrigação,com cada um de nós,que nos saciamos com seus textos. Vc é uma fonte que veio ao mundo transbordante desta capacidade imensa de jorrar textos para saciar nossas almas sedentas.
Continue escrevedo POR Favor !!
P.s: É uma honra receber uma recomendação sua para escrever sobre o tema amor. Claro que sem as riquezas e a correção que exige a nossa língua.Escreverei a partir da minha percepção sobre o tema.
Inaí
ResponderExcluirFiquei impressionada com a riqueza de vocabulário presente neste texto. Cada palavra minuciosamente escolhida que provoca muitas sensações em quem lê!
Devaneio lindo!
Um abraço carinhoso
Ler esse texto me faz pensar em tantas coisas, mas em uma só pessoa. Com certeza ler isso traz a tona milhares de lembranças em cada um que lê. As vezes isso nos faz sentir um aperto no peito, outras nos faz sorrir lembrando dos melhores momentos. Mas tudo na vida tem seu tempo, tem sua hora de acontecer, sua hora de acabar. Acontece com todos.
ResponderExcluirEstá de parabéns, Inaí!
Beijos, beijos.
Engraçado que esse texto exprime exatamente o que estou passando agora. Me causou uma sensação de familiaridade muito boa. Parabéns mesmo.
ResponderExcluirSerá que a fronteira da realidade e do sonho são mais flexíveis do que imaginamos?
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