Postagens

Mostrando postagens de junho, 2015

Reabastecer

Imagem
Pensando na vida, em tudo o que ficou para trás e naquilo que sequer existiu, Laila permitiu-se fraquejar, pois nem sempre é possível se manter firme. Sendo assim, abraçou fortemente o travesseiro e desaguou.  Uma a uma, as lágrimas jorravam e esvaziavam-na. Representavam a intensidade que carregava, os sonhos naufragados, o fato de ter se perdido no caminho e de estar tão distante do que imaginara um dia. O choro marcava os sonhos abandonados, os desejos ocultos, guardados a sete chaves, e todos os fantasmas com os quais convivia. O fato é que ela aguentava: o mau humor do chefe, a cobrança dos amigos, os sonhos adiados, a crise financeira, a responsabilidade em seus ombros, o coração cansado, as dúvidas sobre o destino – tão incerto quanto seus pensamentos. Carregava consigo todas as impossibilidades e, vez ou outra, desabava em lágrimas, para que pudesse se esvaziar de tanta intensidade e retomar a trilha. Tinha medo de estagnar, de desperdiçar o tempo, mas muito al...

Todas numa só

Imagem
Sou mãe, filha, mulher, amante, amiga. Puta e santa. Posso ser seu colo, abrigo e conforto, mas também a tempestade que lhe tira o chão, confunde crenças e abala estruturas. Aqui e agora, posso querer o seu amor ou o seu tesão – sabendo que se tratam de coisas distintas. Numa noite fria, quem sabe, dormir ao seu lado e apenas sentir seus braços a me apertar pela cintura, ou me perder no seu gozo, no seu desejo, fluidos, barba e suor. Sou tantas que você não conseguiria definir. Metamorfose ambulante, tal qual disse o gênio. Transformando e sendo transformada diariamente, mantendo ou reinventando caminhos, tentando aprender com os erros, buscando o crescimento. Sou secretária, dançarina, estudante, professora, confidente, escritora, ouvinte, mulher. Sou muitas, sou tantas, sou todas. Múltipla e única. Portanto, pegue uma taça, sente-se, beba o vinho, dispa-se dos seus preconceitos e esteja certo: ainda há muito a descobrir. "Só você... Que nem você ninguém mais...

Amar? Só quando convém

Imagem
Olhando ao redor, assusta o fato de os homens estarem envoltos em tanto ódio. Creio que muitos não estudaram história ou, se o fizeram um dia, esqueceram-se do quanto a intolerância pode nos conduzir por um terreno instável, perigoso e obscuro. Não somos pares nem iguais, muito menos humanos. Disseminamos ódio e deliberamos sobre quem deve ser salvo e, em contrapartida, sobre quem será condenado – não ao fogo eterno – pois fazemos questão de que o calvário se inicie aqui. Sabe, Senhor, têm sido dias difíceis. Os mandamentos de amor, respeito, igualdade e fraternidade pregados há mais de dois mil anos foram transformados em conceitos distantes e inacessíveis. Atingi-los, conforme quem detém o poder sacro nas mãos, requer atender a muitas exigências. De acordo com eles, não basta a cada um  pegar a sua cruz, abandonar a si mesmo e o seguir. S im, Senhor, eles falam em seu nome e, em muitos casos, não é a sua voz que ouço. Hoje os símbolos são mais sagrados do que a prá...