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Renascer

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Disponível em:  Fênix Era fim do dia. Núria queria dizer que sentia saudade, e talvez isso até fosse verdade, mas não havia como voltar atrás. Certas escolhas, por mais duras e difíceis, precisam ser mantidas, relembradas e reassumidas diariamente. Havia sido assim durante os três meses mais sombrios que vivera. Primeiro, a dor. Depois, a reclusão. E, por último, o silêncio. A tríade tão conhecida, o caminho de volta a si, trilhado tantas e tantas vezes. A mesma estrada pela qual passara em outras épocas, em outros momentos. O roteiro era idêntico, e estar ali significava se proteger e se recuperar. Ainda assim, não fora fácil. Caminhar por dentro de si, reconhecer o que sentira, acolher suas dores e suas lágrimas, entender que não tivera culpa e se perdoar era penoso. Assumir que acreditara em uma ilusão também. Entretanto, a essa altura da vida, ela tinha uma certeza: isso passaria. Poderia demorar um dia, um mês, seis meses, um ano... Mas, ao final, estaria ali: consigo, refeita...

Sobre o engano

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Disponível em:  tristeza-k8yD--1248x698@abc.jpg (1248×698) .   No princípio, havia luz. Era como se finalmente, depois de muitos anos, Núria estivesse em casa. O aconchego, o sorriso largo, as conversas profundas, o abraço caloroso... Tudo ali era motivo para, enfim, aquietar e sentir. No início, havia sentimento, havia química, vontade de estar perto e promessas de um futuro bom. Era recíproco. Feliz e intensamente recíproco. E Núria se sentia sortuda – a mais ditosa entre as mulheres. Era nisso que ela acreditava – ou queria acreditar. O fato é que a verdade sempre estivera diante de seus olhos, estampada a cada sinal, a cada recusa, justificativa, mudança repentina, a cada afastamento, a cada silêncio... Entretanto, ela preferia não ver. Deixara-se levar pelas possibilidades que imaginara, pelo toque que sentira, pelas declarações que ouvira e, mesmo sem perspectiva, imaginara como era bom encontrar alguém que a visse e que a sentisse por inteiro. Mas ele não a via. N...

Imprevisível

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    Clara ia refletindo o caminho inteiro sobre o discurso que havia elaborado mentalmente. As palavras estavam prontas, decoradas, nada sairia do controle. Deixaria claro que entre eles só havia desejo e mais nada, que não havia com o que se preocupar. Mesmo que isso não fosse verdade, ela havia treinado e se convencido de que era real. Não seria a primeira vez que ela camuflaria um sentimento, tampouco a última. Ainda que pensar nele revirasse tudo o que ela sentia, ele não precisaria saber. E não saberia.  Estava tudo certo para aquela noite: a roupa, o perfume, a lingerie, o batom - e o mais importante - as palavras que ecoavam repetidamente em sua cabeça. Por dentro, a vontade tão conhecida, o arrepio na pele. Mais a fundo, um coração ansioso e sufocado pela razão. Depois de tanto tempo, reencontrá-lo era como estar com ele pela primeira vez, mas ela não demonstraria. Manter-se-ia firme no propósito de se convencer de que ali não havia nada além de tesão. Mesmo antes...

Encontro e despedida

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Com os olhos marejados após assistir ao filme favorito, Núria refletia sobre o texto que queria escrever. Estas palavras dominavam sua mente há dias, mas ela não encontrava o momento certo de colocá-las para fora. Agora, porém, era chegada a hora. Então ela pegou papel e caneta e começou a redigir...  Encontrá-lo nessa vida foi como voltar para casa após um longo tempo longe: sentir-se confortável, reconhecer-se em cada parte. Ali, dentro daquele abraço, nada parecia estranho. Ao contrário, a sensação era de profundo pertencimento, não só pelo toque, mas também - e principalmente - pela energia, pelas conversas, pela semelhança de ideias e pelo afeto.  Desde o primeiro olhar, ela reconhecera a diferença. Algo nela era revirado quando o assunto era ele. Por essa razão, Núria tentou se manter distante, afinal, o que nos tira do habitual também nos assusta. Mas o magnetismo estava lá, atuante, vivo. E por mais que ela tentasse se manter ausente por algum tempo, não conseguia se...

Cometa

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  Enquanto olhava o sol no horizonte, Núria pensava no quanto a vida havia se transformado em tão pouco tempo. Tantas mudanças inesperadas, externas e internas. Tantas reconstruções. Quantos sentimentos... Ali, admirando o Astro-Rei que lentamente se despedia para brilhar em outro lugar, ela se lembrava de instantes que ficaram gravados em seu íntimo. Mesmo em meio ao furacão que vivera e que deixara tudo fora de ordem, ela havia sido feliz. Como há tempos não se recordava. Diante da escuridão em que esteve envolvida, aquele encontro inesperado, predestinado a acontecer no tempo e no espaço, surgiu  brevemente e bagunçou, iluminou, reorganizou, transformou e dissipou-se. Não sem antes deixar marcas profundas em tudo o que ela se tornara. Colocando a música que a fazia relembrar de cada instante, Núria se certificava de todos os sentimentos que aquela aparição provocara. Era como se, pela primeira vez em muitos anos, ela estivesse viva novamente. O frio na barriga, o arre...