Encontro e despedida
Com os olhos marejados após assistir ao filme favorito, Núria refletia sobre o texto que queria escrever. Estas palavras dominavam sua mente há dias, mas ela não encontrava o momento certo de colocá-las para fora. Agora, porém, era chegada a hora. Então ela pegou papel e caneta e começou a redigir...
Encontrá-lo nessa vida foi como voltar para casa após um longo tempo longe: sentir-se confortável, reconhecer-se em cada parte. Ali, dentro daquele abraço, nada parecia estranho. Ao contrário, a sensação era de profundo pertencimento, não só pelo toque, mas também - e principalmente - pela energia, pelas conversas, pela semelhança de ideias e pelo afeto.
Desde o primeiro olhar, ela reconhecera a diferença. Algo nela era revirado quando o assunto era ele. Por essa razão, Núria tentou se manter distante, afinal, o que nos tira do habitual também nos assusta.
Mas o magnetismo estava lá, atuante, vivo. E por mais que ela tentasse se manter ausente por algum tempo, não conseguia se afastar definitivamente. Algo a chamava de volta, como se aquele encontro estivesse predestinado a acontecer. Como se aquelas almas tivessem se buscado, no tempo e no espaço, por muito, muito tempo...
E foi isso que ela sentiu: uma profunda vontade de permanecer, de não se esconder, de ser inteira. Sem máscaras, sem rótulos, sem esconderijos. Assim: transparente.
Entretanto, há coisas que não controlamos, especialmente quando isso envolve a escolha do outro. E ele decidiu que era melhor partir.
Naquele dia, ela se lembrava bem, parecia que um buraco havia se aberto sobre seus pés. Como se novamente ela precisasse se afastar do lar. Como se, depois de tanto encontro, ela precisasse ir embora.
Deixá-lo doeu bem mais do que ela poderia supor. E Núria chorou. Não sabia explicar ao certo por que, mas sentia que estava perdendo algo muito importante e isso doía fundo.
Uma a uma, as lágrimas a fizeram se despedir, embora ela não quisesse. O véu do encantamento se partiu e, mais uma vez, ela trocou de pele, vestiu sua armadura e continuou.
Pouco a pouco, ela conseguiu retomar quem era, mas ele ainda habitava seus pensamentos. Quando uma coisa boa acontecia, era nele que ela pensava. Quando os dias pareciam difíceis, era para ele que ela queria correr. Até quando alguém a elogiava ou tentava conquistá-la, era a voz dele que ela ouvia...
Porém, isso não fazia mais parte dos seus dias. Então, sem saber ao certo como, ela continuava, pois não sabia ser de outra forma. Contudo, aquele sorriso fazia falta no seu cotidiano. O abraço caloroso também. E mais ainda as conversas profundas e intermináveis...
Sem falar no toque, no cheiro, no beijo... No fato de que ele aparentava conhecer cada parte do corpo dela desde sempre.
Às vezes, em seus momentos de reflexão, Núria se perguntava se fantasiara e se permitira convencer com tão pouco. Se se mantivera disponível demais e por isso deixara de ser interessante. Se, na verdade, o interesse dele surgira pelo fato de ela estar inalcançável num determinado momento e acabara quando ela mostrou disponibilidade...
No entanto, ela sabia que não era nada disso. Energias não mentem. Corpos também não. E o corpo dele gritava o mesmo que o dela. Ainda que distantes e no silêncio, ela conseguia ouvi-lo chamar.
Ela nunca tinha se sentido dessa forma. E talvez não volte a se sentir assim por um bom tempo, mas se há algo que ela sabe fazer é recomeçar... Então, quem sabe, ela permaneça sozinha, apreciando o fato de ser livre, ou talvez se renda às histórias menos interessantes, mas possíveis...
Nesse caminho de descoberta, Núria tem reencontrado uma parte de si mesma que havia se perdido - e da qual ela sentia muita saudade. Tem se sentido bem consigo, aprendido a apreciar a própria companhia, gostado da liberdade e de saber que ainda desperta olhares, vontades, desejos.
Todavia, mesmo sabendo de tudo isso, no fundo ela só queria se aninhar naquele abraço, ouvir a voz característica, sentir o cheiro bom, ver o sorriso lindo e finalmente dizer que era muito bom estar em casa, mas talvez isso não seja possível. Não aqui. Não nessa vida.

Torcendo para que Nuria encontre o caminho de casa...
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