Imprevisível
Clara ia refletindo o caminho inteiro sobre o discurso que havia elaborado mentalmente. As palavras estavam prontas, decoradas, nada sairia do controle. Deixaria claro que entre eles só havia desejo e mais nada, que não havia com o que se preocupar.
Mesmo que isso não fosse verdade, ela havia treinado e se convencido de que era real. Não seria a primeira vez que ela camuflaria um sentimento, tampouco a última. Ainda que pensar nele revirasse tudo o que ela sentia, ele não precisaria saber. E não saberia.
Estava tudo certo para aquela noite: a roupa, o perfume, a lingerie, o batom - e o mais importante - as palavras que ecoavam repetidamente em sua cabeça. Por dentro, a vontade tão conhecida, o arrepio na pele. Mais a fundo, um coração ansioso e sufocado pela razão.
Depois de tanto tempo, reencontrá-lo era como estar com ele pela primeira vez, mas ela não demonstraria. Manter-se-ia firme no propósito de se convencer de que ali não havia nada além de tesão.
Mesmo antes do encontro, ela já sentia o calafrio conhecido, o sorriso no canto do rosto, as lembranças invadindo a mente, o desejo tomando conta dos poros. Ela sabia que entre eles nada era igual. Nem o beijo, nem o toque, nem as conversas. Nada superficial. Nada comum.
Entretanto, admitir isso - na conjuntura em que se encontravam - era deixar claro o que sentia e isso era proibido. Por isso, o discurso ensaiado, milimetricamente pensado para dar certo.
Ao vê-lo, fora surpreendida com um beijo cheio de desejo e de saudade. Retribuíra, obviamente, mas ainda não se permitira relaxar. Mais adiante, porém, explodiram em vontade: pele, pelos, poros, saliva, toque, energia, intensidade.
Tudo caminhava muito bem, até a frase esperada surgir. Ela, então, começara a explicar o que tanto ensaiara: não era uma menina, estava ali por vontade, por querê-lo do mesmo jeito que ele a queria. Mal tivera tempo de terminar o que dizia e um "eu te amo" surgiu. Ela, que não esperava ouvir aquilo novamente, perdeu o rumo. Repentinamente fora invadida por uma avalanche de memórias. De tempos em que isso era dito habitualmente e com tanta verdade que a fazia sentir a mais sortuda das mulheres.
Agora, porém, essa afirmação a desestabilizava. Mesmo que fosse tudo o que quisesse ouvir, naquele momento, ela não estava preparada. Não aguardava o que aconteceu. Havia imaginado vários cenários, mas em nenhum deles precisaria lidar com isso. Contudo, como conseguiria conter a explosão dentro de si? Como controlar o efeito que aquelas três palavras causavam? Ali só foi possível responder, com todo coração, que também o amava. E essa era uma das grandes verdades das quais tinha certeza na vida. Era o fato que ela vinha lutando para esconder, que vinha fingindo não sentir até acreditar. Havia muito mais a dizer, evidentemente, mas ela não conseguia. Porque admitir que o amava era muito. Era forte. Era grande. E assustador.
Embora estivesse diante do maior paradoxo que já vivera, Clara se permitiu também confessar. E estava feliz por saber que não se enganara. Que mesmo tentando negar tudo o que sentia, era recíproco. Intensamente recíproco. Ela não fantasiara, imaginara ou idealizara.
Para ela, não importava o que o futuro os reservava. Não queria saber se estariam juntos ou não. Se isso era possível ou não. Ali, naquele instante, a única coisa que importava era o sentimento que existia e estava diante deles. Verdadeiro demais para se manter calado ou escondido.

Me pergunto se Clara sabe que merece ser amada.. Talvez ela ja tenha sido tão desenganada, que não percebe que não precisa mais fingir, que não precisa se camuflar. Que basta sonhar e sentir! E que sim, é totalmente merecedora desse sentimento tão puro que e o amor!
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