Imprevisível
Clara ia refletindo o caminho inteiro sobre o discurso que havia elaborado mentalmente. As palavras estavam prontas, decoradas, nada sairia do controle. Deixaria claro que entre eles só havia desejo e mais nada, que não havia com o que se preocupar. Mesmo que isso não fosse verdade, ela havia treinado e se convencido de que era real. Não seria a primeira vez que ela camuflaria um sentimento, tampouco a última. Ainda que pensar nele revirasse tudo o que ela sentia, ele não precisaria saber. E não saberia. Estava tudo certo para aquela noite: a roupa, o perfume, a lingerie, o batom - e o mais importante - as palavras que ecoavam repetidamente em sua cabeça. Por dentro, a vontade tão conhecida, o arrepio na pele. Mais a fundo, um coração ansioso e sufocado pela razão. Depois de tanto tempo, reencontrá-lo era como estar com ele pela primeira vez, mas ela não demonstraria. Manter-se-ia firme no propósito de se convencer de que ali não havia nada além de tesão. Mesmo antes...