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Mostrando postagens de 2016

Invisível

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Lá estava a coisa. Imperceptível, num canto escuro, olhava amedrontada ao redor. Observava as pernas que passavam, sem contudo, entender o seu significado. Há muito tempo vivia ali, debaixo de sol forte ou de grandes tempestades. Já não se lembrava de ter pertencido a um lar ou de ter sido adotada por uma família. Via, as vezes, pessoas passando e fazendo afago em crianças, mas não conseguia imaginar o que era carinho. Ao olharem para ela, percebia nos olhos humanos – bondosos, religiosos e tradicionais – apenas o nojo. Eles sentiam asco das feridas, da aparência suja, mal cuidada e do olhar triste. Quando se cruzavam nas calçadas, eles apressadamente viravam o rosto e prosseguiam com a certeza de nada terem visto. Imersa na própria escuridão, a coisa vira sumir também a racionalidade. Guiada pelos instintos, geralmente tentava caçar, mas as presas sorriam e fugiam, uma vez que um animal tão magro não representava riscos. Assim, com fome e com frio, quando achava comida...

Sobre viver

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Uma trajetória, uma passagem, um ciclo, um circo.  Tantas e tantas vezes camuflando dores, mascarando sentimentos, equilibrando-se durante a existência, abafando gritos que rasgam, dilaceram... Nós na garganta que apertam e sufocam. Quantas palavras ensaiadas e depois caladas... Tantos silêncios torturantes... Quanta urgência guardada em si. Era difícil compreender o que Núria sentia. Nem ela sabia definir o vulcão que habitava em seu peito, e que, contrário à própria essência, não entrava em erupção, consumindo-se e a ela também. Não aprendera a falar sobre sentimentos. Não conseguia desabafar. Prendia a respiração, olhava-se no espelho, treinava, mas na bendita hora uma trave se colocava entre a voz e o mundo exterior. Sendo assim, acostumara-se a acumular acontecimentos. Alguns felizes, outros nem tanto: decepções, ressentimentos, saudades, alegrias, sonhos, tristezas. Todos amontoados no entulho enorme que ela havia se tornado. De não falar, o sentir se tornara ...

Tripalium

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Maria queria ser bailarina. Desde criança, vivia fascinada, vendo aquela figura solitária na caixinha de música, traços leves, doce delicadeza. Também via pela internet apresentações que a faziam chorar, sem que soubesse ao certo  o porquê. Imaginava-se estrelando o Lago dos cisnes. O cisne branco e o negro, tal qual vira uma vez em um filme. Ao passo que ia crescendo, porém, sua mãe dizia que ela precisava estudar e a matriculou. Quando criança, Maria gostava, afinal, na escola forneciam lanche. E para ela essa era uma das poucas refeições do dia. Ao ficar mais velha, contudo, o Estado disse que ela não tinha direito à comida. Então Maria ia, mas permanecia com fome. A mãe trabalhava dia e noite em casa de família, mas não ganhava bem e o dinheiro mal dava para pagar as contas. A essa altura, Maria já não entendia por que precisava estudar. Com fome não conseguia aprender. Pelo conteúdos não tinha como se interessar: por que aprender fórmula de Bhaskara, por que es...

Alarme

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Ali não existia perfeição.  Ao contrário: o que há são defeitos, sangue, calor. Um mundo inteiro pulsando no peito.  Olhando-se no espelho, Clara refletia sobre a própria essência. Misto de loucura e sanidade, leveza e angústia.  Sentia a intensidade exalando pelos poros, tomando-lhe vagarosamente o corpo, as mãos envolviam-na por completo, possuindo e preenchendo cada espaço existente, como se para saborear o gosto da posse. Gosto acre. Denso.  Por vezes desejava isolar-se. Sem ver nem ouvir ninguém. Silenciar as vozes do mundo, trancar-se e conviver apenas com seus pensamentos, séries, músicas e o vinho preferido. Em outros momentos, gritava, tentando despejar a força que já não suportava armazenar. Ora queria colo, ora briga. Amar ou odiar. Chorar ou sorrir. Ser feliz ou triste. Querer ou desdenhar. Sem meios-termos ou meias escolhas. Clara andava na linha tênue entre o silêncio e o alarme, o estar e o partir, entre o agora e o nunca mais. Se...

Vestígios

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Núria olhava para si mesma. Havia cicatrizes em cada poro e um medo inexplicável de se ferir novamente. Durante anos, proclamara a segurança obtida, a ausência de preocupação com questões tão ínfimas, a autossuficiência adquirida quando o assunto era relacionamento. Contudo, carregava consigo as experiências fracassadas, as angústias e decepções sofridas e isto se acumulara ao longo do tempo. Como não se permitia envolver, deixara de pensar na fragilidade. Admitia-se forte, bem resolvida, curada.  Agora, porém, via a fraqueza incrustada em sua pele, a insegurança gritando em seus ouvidos, passeando em suas veias. Era capaz de sentir o cheiro do medo e de quase tocá-lo, tão palpável ele parecia ser. Via-o ao redor, rondando, aguardando o momento exato para atacar. Como um monstro ctônico, surgindo do subterrâneo e observando, ele espreitava e sorria.  Não havia sido fácil e estava longe de ser. Foram muitos naufrágios e apostas equivocadas que gerar...