Sobre viver
Uma trajetória, uma passagem, um ciclo, um circo.
Tantas e tantas vezes camuflando dores, mascarando sentimentos, equilibrando-se durante a existência, abafando gritos que rasgam, dilaceram... Nós na garganta que apertam e sufocam.
Quantas palavras ensaiadas e depois caladas... Tantos silêncios torturantes... Quanta urgência guardada em si.
Era difícil compreender o que Núria sentia. Nem ela sabia definir o vulcão que habitava em seu peito, e que, contrário à própria essência, não entrava em erupção, consumindo-se e a ela também.
Não aprendera a falar sobre sentimentos. Não conseguia desabafar. Prendia a respiração, olhava-se no espelho, treinava, mas na bendita hora uma trave se colocava entre a voz e o mundo exterior.
Sendo assim, acostumara-se a acumular acontecimentos. Alguns felizes, outros nem tanto: decepções, ressentimentos, saudades, alegrias, sonhos, tristezas. Todos amontoados no entulho enorme que ela havia se tornado.
De não falar, o sentir se tornara exagerado. Os poros, o sangue, as veias exalavam tudo o que Núria não ousava proferir: intensidade, angústia, ansiedade.
Mais do que isso... Perto dela era notável a necessidade que tinha de gritar, mas, retraída, não havia percebido que para sobreviver é preciso explodir. E que a libertação só vem depois disso.

Comentários
Postar um comentário