Invisível
Lá estava a coisa. Imperceptível, num canto escuro, olhava amedrontada ao redor. Observava as pernas que passavam, sem contudo, entender o seu significado. Há muito tempo vivia ali, debaixo de sol forte ou de grandes tempestades. Já não se lembrava de ter pertencido a um lar ou de ter sido adotada por uma família. Via, as vezes, pessoas passando e fazendo afago em crianças, mas não conseguia imaginar o que era carinho. Ao olharem para ela, percebia nos olhos humanos – bondosos, religiosos e tradicionais – apenas o nojo. Eles sentiam asco das feridas, da aparência suja, mal cuidada e do olhar triste. Quando se cruzavam nas calçadas, eles apressadamente viravam o rosto e prosseguiam com a certeza de nada terem visto. Imersa na própria escuridão, a coisa vira sumir também a racionalidade. Guiada pelos instintos, geralmente tentava caçar, mas as presas sorriam e fugiam, uma vez que um animal tão magro não representava riscos. Assim, com fome e com frio, quando achava comida...