Invólucro
Para os outros, abria um leque de discursos com conselhos amorosos: resoluções, mudança de postura, uma cartilha inteira para indicar o que deveria ou não ser feito. Como se a sua vida amorosa fosse perfeita. Como se o coração não lhe apertasse tanto o peito a ponto de sufocar os outros órgãos. Naquelas horas, parecia demasiadamente simples deliberar sobre o que quer que fosse: não era a sua vida, não eram as suas fragilidades expostas, o seu medo não estava envolvido. Não havia mãos e rostos e cabelos e afagos e desejos e camas quentes, abraços e beijos. Apenas situações e sobre isso era fácil decidir. Refaça sua vida, redescubra-se, retome as rédeas da sua história de cabeça erguida, não desanime, prossiga. Um vocabulário preparado para animar a qualquer um. Contudo, sabia bem não ser assim. Conhecia aquela dor, o medo de ir embora, embora não transparecesse mais. Havia se treinado para isso: esboçar sorrisos que internamente lhe arrancavam pedaços, preocupar-se com sofrimento a...