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Mostrando postagens de 2014

Sobretudo, amar.

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Para o Sr. Antonio Pereira da Silva (meu pai). Com amor. Nunca fomos amigos, verdade seja escrita. Talvez pela diferença de idade e pelo abismo que isto criou ou, quem sabe, por causa do gênio forte de ambos e da reserva quanto a demonstrar sentimentos. O fato é que, por muitos anos, eu o culpei, pai. Por não ter sido tão amoroso quanto minha mãe, por não ter nos abraçado muitas vezes durante a vida, por não ter tentado nos proteger contra tudo e contra todos como fez – e ainda faz – a dona Ester. Eu o culpei por um bom tempo e depois esqueci. Cresci e deixei tal preocupação, afinal, ela já não era importante, eu afirmava. Entretanto, lá no fundo tal mágoa continuava a existir. Todos os não-ditos e não-feitos gritando, mantendo aberta a ferida cultivada com tanto zelo durante os meus vinte e nove anos. Desse modo, deixei de perceber que eu também me privei de amá-lo plenamente e não só em alguns momentos. Deixei de notar que o senhor nos amou ao seu modo, com todos os ...

Combustão

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O puxão de cabelo naquela noite fora uma intimação. Prenúncio do que viria em seguida.  O menor toque entre os dois fazia incendiar. Sabendo disso, Edu passou o braço pelo ombro da parceira e, dirigindo-se à sua nuca, fitou seus olhos, subiu os dedos e puxou. Não deixando, claro, de esboçar um sorriso enquanto percebia que o semblante dela havia se transformado, que seu corpo se retesara e que agora ela fazia um esforço enorme para se concentrar na conversa. Desafio lançado, continuaram a noite provocando um ao outro sem que os presentes notassem o cheiro de desejo pairando no ar. Anne, que costumava revidar à altura as provocações de Edu, enquanto voltava do banheiro, decidiu que era tudo ou nada e que ele aprenderia a não desafiá-la novamente. Chegando na mesa, virou-se para ele e em seu ouvido disse que havia tirado a micro-lingerie que usava, restando saber apenas se ele teria coragem de ir até o fim. – Certamente. - disse ele sorrindo e disfarçando com um beij...

Abdicar

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Não havia perfeição neles, recordava-se Clarice. Lembrando dos gênios fortes, das respostas prontas e do orgulho gritante dos dois, só podia deduzir que, em outra circunstância, jamais teriam se envolvido. Ali, contudo, o Universo havia conspirado. Para que se conhecessem, convivessem, para que fossem amantes sequiosos, para que fossem melhores. Além das loucuras que viveram, das experiências compartilhadas e do sexo sempre insano e fantástico, o tempo que aproveitaram juntos serviu para trazer leveza. A certeza de que qualquer envolvimento, por mais banal e carnal, tem de ser livre de fardos; de que o outro tem de somar e tornar o caminho menos tortuoso do que é. Tinham em comum o desejo pela vida e a aproveitaram ao máximo, apesar de se considerarem muito diferentes (e embora fossem mais parecidos do que queriam admitir). Experimentaram a companhia, o afeto e o desejo sem esperar por compromissos pré-determinados ou por convenções sociais. Foi bonito, intenso e louco - ...

Regeneração

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Dia desses houve um incêndio. Queimou árvores, a grama, tornando a paisagem cinza, o céu nublado diante da fumaça. O fogo consumia tudo ao redor, destruía os vestígios de vida. As chamas eram vistas ao longe: intimidavam pela magnitude, pelo aviso de perigo que emitiam à distância. Hoje, contudo, passando pelo mesmo local, Alice percebeu que a vida retornava. Observou que a natureza, mesmo sofrendo por causa da ignorância humana, sempre encontrava um meio de resistir e ressurgir ainda mais gloriosa. O verde renascia na paisagem e mostrava a força do seu esplendor: brotar novamente de onde, até pouco tempo, só havia cinzas. Alice refletia sobre a lição que acabara de aprender. Pensava que cada amanhecer, assim como o verde renascendo, era uma oportunidade de reconstrução. Uma forma de ressurgir das cinzas para uma nova vida, um meio de expurgar o que feriu ontem. A decisão de apagar as chamas que também consomem sentimentos, pensamentos e alegrias. Um novo dia trazia em si mesmo...

Sobre intensidade, amor, lágrimas e renúncias

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Não era fácil para Núria lidar com tanta intensidade. Carregar sobre os ombros o peso de não ser imparcial, de se posicionar sempre, de assumir riscos e arcar com as consequências. Não havia meios-termos, meias histórias, meio amor. Ou fazia sol ou a tempestade aparecia. Nada de gostar mais ou menos, de viver mais ou menos, de desejar pela metade. Não. Era oito ou oitenta, como dizem por aí. Não era simples sentir na alma o que a maioria das pessoas só sente no corpo. A dor de ser toda coração ainda era um sério problema: gargalhava com todo o seu ser. E sofria da mesma forma. Ali, embaixo do chuveiro por vários minutos, vivendo mais um episódio causado pelo excesso de intensidade, assumindo para si o fardo que é ser demais e tentando esquecer a razão das lágrimas, Núria pensava no futuro: há muito havia deixado de acreditar no amor - embora não tivesse conseguido deixar de percebê-lo e senti-lo em seu sangue, veias, artérias e poros. Ela era amor da cabeça aos pés, mas ...

Transcende

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Houve um tempo em que eu sonhei com você: pequenina, no meu colo, olhos castanhos, pele morena, cabelo preto. Desenhei cada detalhe da sua face, seus lábios bem desenhados, seu rostinho sereno, imaginei o seu cheiro, a pureza e suavidade do seu existir. Já te vi, assim, como quem pressente um futuro bom. A sua voz me dizendo para aquietar o coração e sossegar, que em breve você chegaria. O desejo de, no fundo, receber a dádiva de carregar no ventre -  e na alma - um ser que partiria de mim para o mundo, a continuação da minha história em linhas tão novas e diferentes das minhas, um pedaço da minha intensidade pulsando em outro coração, em um infinito de possibilidades e destinos. Isso foi há muitos anos, meu amor. Não julgue a minha falta de coragem agora, apenas compreenda que as circunstâncias são outras, que a vida é diferente. Andar por aí faz com que mudemos rumos e escolhamos estradas divergentes daquelas que sonhamos um dia. E foi exatamente assim que tudo mud...

Devaneando

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Uma dama: palavras polidas, requinte ao se vestir, voz baixa, sorriso discreto. Nada que denunciasse seus pensamentos naquele momento. Ali, quieta, com o fone no ouvido, Ellie imaginava um milhão de situações e uma delas era dançar com o tal som ao fundo. Bem verdade que aquela música mexia com seus instintos mais primitivos. O blues bem embalado exalava desejo, ela era capaz de senti-lo invadindo-lhe os poros... Via-se no quarto, ditando as regras daquele jogo, olhando-o nos olhos, passeando pelo corpo viril, dizendo no ouvido as palavras pelas quais havia aguardado uma semana inteira. Dançar e vê-lo se perder a cada movimento dela, a cada vez que descia e subia, enroscando-se no corpo dele - instigando-o mais ainda, obviamente. Vê-lo encontrar o desejo que ela possuía ao passo que suas mãos desenhavam o mesmo movimento, enquanto ela o conduzia para o caminho mais pervertido e livre que pudessem encontrar. Sem pudores, sem medo, sem porquês. Retirar roupas, medos, segredos,...

Sutilmente

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Você pode estar comigo em qualquer lugar que queira. Podemos viajar, conhecer o que há lá fora, este mundo repleto de significados, esperando que o desvendemos, que o redescubramos, que o preenchamos com novas cores, que consigamos desfrutá-lo em sua total plenitude... Para isso, basta que sejamos leves. Que nos livremos das amarras da posse. Não pertencemos, somos. Tu me és, eu te sou. Ligados, unidos, um vínculo maior do que uma aliança: uma escolha, uma vontade. Livres do peso do ter. Não tens o meu amor, porque ele não se prende. Eu te dou, entrego-o, pois ele existe para viver fora do meu peito. Por isso, escolho teu sorriso largo, os banhos de chuva, os fins de semana na fazenda, escolho as mesas de bar, o aconchego das cobertas, os filmes, beijos e abraços. Escolho o teu peito, o teu coração nesse compasso acelerado, o cabelo desgrenhado, a briga de travesseiros, nós dois sentados na beira do mar. Escolho a es...

(Des)gosto

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Acontece e é assim que se aprende, menina. Ellie descia correndo as escadas refletindo sobre o peso que é sentir. Esse sentir doído que atravessa o peito e enche a garganta de nó. Esse sentir errado que, em vez de tornar leve, transforma em  peso, em pesar. Ela saía de mais uma reunião, o cérebro fervilhando, a garganta ardendo, os olhos em chamas, a alma em frangalhos. Não fora fácil vestir-se de racionalidade sabendo que lá estava ele a observá-la fixamente. O seu olhar, mais penetrante do que um punhal, soubera decifrar cada gesto, cada falácia: desde o sorriso forçado à imensa falta de concentração. Pensar nele mexia com seu íntimo. Ainda não era capaz de imaginá-lo distante como de fato era agora, um estranho em meio a tantos outros. Ainda não havia apagado a imagem dele sorrindo para ela, piscando de um modo maroto, ou das mãos sedentas buscando o seu corpo durante a noite. Não havia se esquecido dos afagos no cabelo, da risada escandalosa, do jeito observador, da b...

Sobre se perder

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Estava determinado: paixão era um tema proibido entre eles. Beijar podia, cuidar podia, mas se apaixonar não. Porque a paixão estraga a leveza que é se relacionar sem pensar em obrigações, agrega uma série de regras dispensáveis, que trazem consigo o peso de pensar além. E o amanhã ali não existia, muito menos o futuro, este que nos arranca da realidade e nos transporta para um mundo de suposições, idealizações e flagelos. Ririam juntos, comemorariam a vida, compartilhariam alguns momentos, mas nada que ultrapassasse a linha tênue entre a superficialidade e a paixão. O momento em que se quer aprofundar nos mistérios do outro, o instante em que há o desejo de eternizar o abraço e que a vontade de rever torna-se uma necessidade eram considerados faltas graves e deveriam ser evitadas. Construíram uma série de restrições e prosseguiram. Assim, carregando no peito a certeza de que eram inatingíveis. Leves, orgulhosos da conquista que é não se envolver. A culpa não era deles, afin...

Alerta!

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O mundo caga regras sobre nós. Exatamente isto que você leu. Caga. Despeja sobre as nossas cabeças todo o lixo que produz e nos enfia goela abaixo suas normas sem significado, para que nos tornemos mais um molde. Se você for mulher então, prepare-se: tem de ser magra, ter o cabelo liso, andar bem-vestida, ser agradável (mas não oferecida), tem que satisfazer o "seu homem", mas não pode admitir gostar de sexo – aliás, se gostar, deverá praticá-lo estando em um relacionamento sério e dentro dos padrões – do contrário, vadia que certamente é, não será merecedora de um casamento feliz, filhos, um lar. Por falar nisso, a mulher tem que sonhar com um casamento e desejar ter filhos. Se não o fizer, é frustrada, mas tal problema será resolvido quando uma paixão avassaladora chegar, dizem as boas línguas. – Ai, minha filha, você abandonará seu discurso de não querer casar/ser mãe e se tornará uma mulher de verdade – falam as amigas casadas e amorosamente bem-sucedidas, a t...

O dia em que já não era amor

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Ele reinou durante anos. Absoluto, senhor e dono de tudo. Intocável no pedestal que outrora fora construído em sua homenagem. Intacto, olhar altivo... Mesmo debaixo de sol, chuva, ventos e tempestades, lá estava ele, senhor do tempo e das ocasiões: porto-seguro, redoma disfarçada de liberdade, esperança de sonhos concretizados em uma relação supostamente perfeita. Ilusões de um coração jovem e inexperiente, vocês hão de entender. Ali dentro, ele era Rei. Seus desmandos eram ordens. Suas vontades, prontamente atendidas. Muito foi feito e refeito, muito se enfrentou, mas muito se aprendeu, pois quando caem, há véus que não retrocedem, há realidades que se transformam. Mesmo mudada, ela o quis. Desejou-o com toda sua força. Teimosa que era, insistiu na relação falida. No barco naufragando. Fingiu não ouvir os instintos que lhe gritavam o fracasso do envolvimento. Quis e teve. E mais uma vez se magoou. E muito mais aprendeu. Desse modo, um dia ele se tornou pouco. Pouco para ...

Introspectivamente

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Do amor restou uma lembrança. Uma foto antiga, onde sorrisos pareciam não prever o que viria depois. Um cheiro reconhecível em outros corpos, tão alheios ao que partiu. É triste perder para sempre – Núria pensava. Principalmente quando o ente continua passeando em nós, tão vivo, forte e real. Quando, mais do que uma presença, ele representa uma parte do que se foi. Abraçando o travesseiro, mil e um pensamentos rondavam-lhe a mente. Relembrava o passado, a felicidade simples que havia experimentado e o árduo caminho até chegar ao agora. Até ser quem havia se tornado. Contudo, a verdade (essa eterna inimiga da negação humana), gritava no silêncio do quarto. Ela tentava em vão abafá-la, mas já não era possível. Uma vez pensadas, há certezas que se projetam sobre nós com uma voracidade inesperada. E, nesse instante, a consciência de Núria expressava o que o coração já sentia, mas fingia, negava, escondia: ela não ...

Religar

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A religião por si só não nos faz bons, meus caros. As intolerâncias com as quais convivemos provam tal afirmação. Basta discordarem em algum aspecto que até os mais fervorosos  arremessam pedras, ofendem, julgam, tentam impor suas convicções. Matam e morrem em nome de Deus. Dos cruzados que usavam o sinal da cruz como emblema em seus uniformes e massacravam turcos durante o combate; da Santa (?) Inquisição que queimava e torturava qualquer um que fosse considerado herege; dos jesuítas que tornavam os índios civilizados; dos conflitos religiosos no Oriente Médio; dos homens-bomba que matam e morrem por Alá; da venda de lugares no céu; dos 'milagres' modernos ao aumento da violência entre mulçumanos e cristãos na República Centro-Africana, o que se vê são pessoas lutando por causas que consideram legítimas, fundindo religião à política, à economia, à disputa por território e difundindo pela humanidade a i...

Mistérios e sensações

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– Você está diferente. – Como assim? – Não sei. Mais bonita, um brilho novo no olhar. Diferente da menina tímida que vinha aqui há anos. – Ah.. As coisas mudam, não é? Melhor assim. Clara sorriu, revelando sua arma mais poderosa e emendando com um olhar de quem ainda escondia muita coisa. Respondeu as perguntas que Hugo fizera depois, calmamente, sem hesitar. Aquele homem estava interessado nela, podia perceber, e dar atenção às intenções dele fazia com que alimentasse seu ego. Era bem verdade que ela havia mudado – talvez menos do que queria e mais do que deveria – tão verdade quanto o espanto que a percepção dele causou, afinal, não se viam há muito tempo. Contudo, deixar o mistério no ar fazia parte do jogo, pois a mudança não se fazia apenas no plano físico. Notou que ele disfarçava enquanto a examinava dos pés a cabeça. Elogiou-lhe as respostas rápidas, as coxas grossas, o pensamento sagaz, a transformação pela qual passou – e que ele soube pon...