Sobretudo, amar.

Para o Sr. Antonio Pereira da Silva (meu pai). Com amor.


Nunca fomos amigos, verdade seja escrita. Talvez pela diferença de idade e pelo abismo que isto criou ou, quem sabe, por causa do gênio forte de ambos e da reserva quanto a demonstrar sentimentos.
O fato é que, por muitos anos, eu o culpei, pai. Por não ter sido tão amoroso quanto minha mãe, por não ter nos abraçado muitas vezes durante a vida, por não ter tentado nos proteger contra tudo e contra todos como fez – e ainda faz – a dona Ester. Eu o culpei por um bom tempo e depois esqueci. Cresci e deixei tal preocupação, afinal, ela já não era importante, eu afirmava.
Entretanto, lá no fundo tal mágoa continuava a existir. Todos os não-ditos e não-feitos gritando, mantendo aberta a ferida cultivada com tanto zelo durante os meus vinte e nove anos.
Desse modo, deixei de perceber que eu também me privei de amá-lo plenamente e não só em alguns momentos. Deixei de notar que o senhor nos amou ao seu modo, com todos os seus erros e defeitos, muitas vezes fazendo um esforço quase sobre-humano para que sentíssemos que sim, havia sentimentos ali.
A realidade, meu pai, é que o senhor também nunca recebeu amor. Os pais morreram cedo, o padrinho, com quem havia uma chance de receber afeto, também partiu quando eras apenas um menino. Menino este que se viu só pelo mundo, que teve de largar os estudos para trabalhar, que passou fome, dormiu na rua, que aprendeu a resistir e se tornou um sobrevivente. O senhor não conheceu o carinho, o colo materno, o afago, o cafuné. Como poderia, portanto, ofertar-me todas essas coisas sem ao menos conhecê-las?
Hoje, vendo-o tão fraco e debilitado pela idade e pelo aneurisma, eu compreendo o que nunca havia visto: que o senhor, à sua maneira, nos deu o que não compreendia, o que não havia provado durante toda sua existência. Vendo-o criança enquanto penteamos o seu cabelo, fazemos curativo nos seus machucados ou o ajudamos a caminhar, percebo que, pela primeira vez, tens a oportunidade de ser plenamente amado. Entendo que já não importa o que não foi feito, que todos os não-ditos ficaram em um passado sem importância.
Olhando-o assim e rindo enquanto conversamos, noto que há muito do senhor em mim: na facilidade de me emocionar, no fato de amar bolero, tango, Nelson Rodrigues e de me encantar pela vida boêmia, pela língua espanhola e por todas as belezas do mundo – inclusive a escrita. É graças ao senhor que tenho uma visão diferenciada sobre Deus e sobre todas as leis que regem o Universo.
Depois desse tornado que tem rodeado a nossa vida nos últimos dias, entendi que é somente no agora que podemos amar, cuidar e perdoar, independentemente dos ideais que atribuímos às pessoas que nos cercam. Independente do que sonhamos pra elas, do que construímos em nosso imaginário, é na realidade que a vida se faz e é somente e tão somente amando que somos melhores.
Perdoe-me por todos os julgamentos, reclamações e acusações, pai. Eu sigo pedindo ao Universo que me permita amá-lo aqui e para além dessa vida.

"Todos têm qualquer coisa repetida, um pedaço de quem nos concebeu..."

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