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Sobre águas e brasas

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Tudo continuava igual, embora tão diferente. Tão real, mesmo que fosse inacreditável. Uma infinidade de mudanças e, ainda assim, a equivalência permanecia. Lá fora chovia. Era primavera, mas não se viam flores. Núria estava na janela, absorta em pensamentos, tentando lembrar quando fora a última vez que sorrira verdadeiramente, tal como estampava o porta-retrato propositalmente esquecido na mesa de cabeceira, junto com o seu passado. Não sabia há quanto tempo estava a observar a água cair do céu, molhar as árvores e enchê-las de vida, segundos antes de vir ao chão e escorrer pela rua deserta. Sentia vontade de sair e de se deixar renovar, assim como as folhas. De sentir a água molhando-lhe o corpo e a alma, purificando-lhe o coração. Uma limpeza completa – pensou – enquanto se afundava novamente em ideias e lembranças. De repente, algo lhe assustou e lhe prendeu a atenção: duas crianças que chegavam da escola pararam na rua e começaram a brincar na chuva. Depois, mais duas se a...

Renascer

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Disponível em:  Fênix Era fim do dia. Núria queria dizer que sentia saudade, e talvez isso até fosse verdade, mas não havia como voltar atrás. Certas escolhas, por mais duras e difíceis, precisam ser mantidas, relembradas e reassumidas diariamente. Havia sido assim durante os três meses mais sombrios que vivera. Primeiro, a dor. Depois, a reclusão. E, por último, o silêncio. A tríade tão conhecida, o caminho de volta a si, trilhado tantas e tantas vezes. A mesma estrada pela qual passara em outras épocas, em outros momentos. O roteiro era idêntico, e estar ali significava se proteger e se recuperar. Ainda assim, não fora fácil. Caminhar por dentro de si, reconhecer o que sentira, acolher suas dores e suas lágrimas, entender que não tivera culpa e se perdoar era penoso. Assumir que acreditara em uma ilusão também. Entretanto, a essa altura da vida, ela tinha uma certeza: isso passaria. Poderia demorar um dia, um mês, seis meses, um ano... Mas, ao final, estaria ali: consigo, refeita...

Sobre o engano

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Disponível em:  tristeza-k8yD--1248x698@abc.jpg (1248×698) .   No princípio, havia luz. Era como se finalmente, depois de muitos anos, Núria estivesse em casa. O aconchego, o sorriso largo, as conversas profundas, o abraço caloroso... Tudo ali era motivo para, enfim, aquietar e sentir. No início, havia sentimento, havia química, vontade de estar perto e promessas de um futuro bom. Era recíproco. Feliz e intensamente recíproco. E Núria se sentia sortuda – a mais ditosa entre as mulheres. Era nisso que ela acreditava – ou queria acreditar. O fato é que a verdade sempre estivera diante de seus olhos, estampada a cada sinal, a cada recusa, justificativa, mudança repentina, a cada afastamento, a cada silêncio... Entretanto, ela preferia não ver. Deixara-se levar pelas possibilidades que imaginara, pelo toque que sentira, pelas declarações que ouvira e, mesmo sem perspectiva, imaginara como era bom encontrar alguém que a visse e que a sentisse por inteiro. Mas ele não a via. N...

Imprevisível

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    Clara ia refletindo o caminho inteiro sobre o discurso que havia elaborado mentalmente. As palavras estavam prontas, decoradas, nada sairia do controle. Deixaria claro que entre eles só havia desejo e mais nada, que não havia com o que se preocupar. Mesmo que isso não fosse verdade, ela havia treinado e se convencido de que era real. Não seria a primeira vez que ela camuflaria um sentimento, tampouco a última. Ainda que pensar nele revirasse tudo o que ela sentia, ele não precisaria saber. E não saberia.  Estava tudo certo para aquela noite: a roupa, o perfume, a lingerie, o batom - e o mais importante - as palavras que ecoavam repetidamente em sua cabeça. Por dentro, a vontade tão conhecida, o arrepio na pele. Mais a fundo, um coração ansioso e sufocado pela razão. Depois de tanto tempo, reencontrá-lo era como estar com ele pela primeira vez, mas ela não demonstraria. Manter-se-ia firme no propósito de se convencer de que ali não havia nada além de tesão. Mesmo antes...

Encontro e despedida

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Com os olhos marejados após assistir ao filme favorito, Núria refletia sobre o texto que queria escrever. Estas palavras dominavam sua mente há dias, mas ela não encontrava o momento certo de colocá-las para fora. Agora, porém, era chegada a hora. Então ela pegou papel e caneta e começou a redigir...  Encontrá-lo nessa vida foi como voltar para casa após um longo tempo longe: sentir-se confortável, reconhecer-se em cada parte. Ali, dentro daquele abraço, nada parecia estranho. Ao contrário, a sensação era de profundo pertencimento, não só pelo toque, mas também - e principalmente - pela energia, pelas conversas, pela semelhança de ideias e pelo afeto.  Desde o primeiro olhar, ela reconhecera a diferença. Algo nela era revirado quando o assunto era ele. Por essa razão, Núria tentou se manter distante, afinal, o que nos tira do habitual também nos assusta. Mas o magnetismo estava lá, atuante, vivo. E por mais que ela tentasse se manter ausente por algum tempo, não conseguia se...

Cometa

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  Enquanto olhava o sol no horizonte, Núria pensava no quanto a vida havia se transformado em tão pouco tempo. Tantas mudanças inesperadas, externas e internas. Tantas reconstruções. Quantos sentimentos... Ali, admirando o Astro-Rei que lentamente se despedia para brilhar em outro lugar, ela se lembrava de instantes que ficaram gravados em seu íntimo. Mesmo em meio ao furacão que vivera e que deixara tudo fora de ordem, ela havia sido feliz. Como há tempos não se recordava. Diante da escuridão em que esteve envolvida, aquele encontro inesperado, predestinado a acontecer no tempo e no espaço, surgiu  brevemente e bagunçou, iluminou, reorganizou, transformou e dissipou-se. Não sem antes deixar marcas profundas em tudo o que ela se tornara. Colocando a música que a fazia relembrar de cada instante, Núria se certificava de todos os sentimentos que aquela aparição provocara. Era como se, pela primeira vez em muitos anos, ela estivesse viva novamente. O frio na barriga, o arre...

Desatracar

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Fonte: Pinterest Algumas histórias se repetem. Núria pensava nisso enquanto sentia a brisa do mar bater em seu rosto e invadir os pensamentos, a alma e, principalmente, o coração exausto. O cheiro do mar, a força das ondas, a textura da areia, o sol se pondo, tudo isso a ajudaria a se recompor do dia difícil que tivera e, mais ainda, lhe permitiria colocar a mente e os sentimentos em ordem.  Ali, no seu lugar favorito no mundo, ela refletia sobre o peso enorme de ser, estar e sentir. Pensava no fato de não estar feliz há muito tempo, na constatação de que apenas vinha aceitando a calmaria em que vivia, mascarando-a como felicidade, enganando aos outros e a si mesma. Refletia sobre a certeza de já não ser a mesma, de ter se perdido pelo caminho e de não conseguir mais renunciar a si. Com os sentidos dormentes, engolidos pela rotina em que se metera, ela sentia falta de sentir. Fundo, forte, intenso. Do brilho nos olhos, do frio na barriga, dos beijos voluptuosos, dos abraços desejos...

Sobre presenças, memórias e saudades

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  Existem amores da vida que não são para a nossa vida. Scarlett refletia sobre isso enquanto tomava uma taça de vinho. A chuva lá fora trouxera lembranças até então adormecidas dentro dela: de tempos em que a casa era preenchida por gargalhadas, beijos, cheiros e conversas; de quando a cama não era abarrotada apenas de livros e sonhos, mas também de corpos quentes e sedentos. Sentada em frente à lareira, ela pensava sobre as diferentes formas de amor existentes. Agora ela sabia. Não se ama apenas uma vez na vida, concluiu. Havia amado intensamente em alguns momentos - e aprendido em todos eles. Um deles, contudo, tinha se reavivado em seu íntimo naquele dia e desde cedo ela se pegara relembrando as aventuras, os sorrisos, os instantes, as viagens, a leveza do que foi. Talvez pela ausência de cobranças, pela vontade de desfrutar a vida ou, quem sabe, devido ao sonho da noite anterior, aquela presença de repente se fez tão vívida. Não havia como negar que a trajetória agora era outr...