Renascer
Era fim do dia. Núria queria dizer que sentia saudade, e talvez isso até fosse verdade, mas não havia como voltar atrás. Certas escolhas, por mais duras e difíceis, precisam ser mantidas, relembradas e reassumidas diariamente.
Havia sido assim durante os três meses mais sombrios que vivera. Primeiro, a dor. Depois, a reclusão. E, por último, o silêncio. A tríade tão conhecida, o caminho de volta a si, trilhado tantas e tantas vezes. A mesma estrada pela qual passara em outras épocas, em outros momentos. O roteiro era idêntico, e estar ali significava se proteger e se recuperar.
Ainda assim, não fora fácil. Caminhar por dentro de si, reconhecer o que sentira, acolher suas dores e suas lágrimas, entender que não tivera culpa e se perdoar era penoso. Assumir que acreditara em uma ilusão também. Entretanto, a essa altura da vida, ela tinha uma certeza: isso passaria. Poderia demorar um dia, um mês, seis meses, um ano... Mas, ao final, estaria ali: consigo, refeita e muito, muito mais forte.
Pensar nisso e se recordar de todas as vezes em que havia se restaurado após se sentir vulnerável, fragilizada e de coração partido, fez com que ela continuasse. Dia após dia. Ela já conhecia o trajeto, agora só precisava passar por ele. Embora isso não significasse permanecer incólume, Núria se vestiu de verdade - a mesma que doou - abraçou-se e decidiu que enfrentaria os espinhos. Sem máscaras. Sem fingir falsas alegrias. Sentindo profundamente o que havia para sentir enquanto fosse preciso. Em alguns dias, feliz; noutros, chorosa. Ora plena, ora considerando-se idiota. Em alguns momentos, suficiente; noutros, desejando o colo que fantasiara.
Nesse período houve negação e choque. Raiva e ressentimento. Questionamentos. Culpa. Ansiedade, dores lancinantes - no corpo e na alma - falta de paciência, asco, volúpia. Complexo como todo recomeço, houve dias de sorriso no rosto e dias de olhos inchados. Nostalgia e idealização. Insegurança. Gargalhadas, desabafos, taças de vinho, soluços, conversas intermináveis sobre o assunto, banhos de chuva, de sol e de sal. Houve lembranças e revolta. Carinho e desprezo. Houve acolhida, abraços, afagos, afeto. Houve amizade, amor puro, apoio e mão no ombro. Compromissos, trabalho, amigos, mais questionamentos, certezas, músicas, palavras, alívio.
Era fim de noite. Núria queria dizer que sentia saudade - e talvez isso até fosse verdade - mas, nessa história, a maior ausência que sentia era a de si mesma. Ao pensar nele, notou que já que não doía tanto, que já não se lembrava com frequência e que não sentia como antes.
Ao perceber-se assim, sorriu. O caminho estava chegando, enfim, ao seu desfecho.

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