Fera, bicho, anjo e mulher
Ela o quis: o sorriso ao acordar, os dedos entrelaçados, a paz de um amor tranquilo. Pela primeira vez em anos, quis sossegar. Abandonar os corpos, as mãos sedentas, as almas vazias. E se entregar novamente sem pensar nos danos. Depois de muito penar, ela quis ter e ser paz. O desejo já não era essencial, tornaram-se cruciais os sorrisos, os olhares, a troca de afeto. Com o coração desperto, quis e tentou, ligou, insistiu. Olhou nos olhos, entregou o melhor abraço, foi sentimento. Sendo inteira e intensa como de costume, deu o melhor de si, engoliu o orgulho, esqueceu a timidez, admitiu a saudade. Revelou a vontade de ficar. Sem precisar fugir no dia seguinte, sem rejeitar ligações e mensagens. Ficar. Aceitá-lo tal como era. Como resposta, porém, recebeu indiferença e descaso. Sentindo acender em si a velha chama, ela desistiu. Embelezou-se, emagreceu. Cansou. De ter ligações não retornadas, de chegar em casa sozinha e de pensar nele até que o sono viesse, de ver o...