Nostalgia



Núria se lembrava daquele que, nos últimos tempos, fora o único capaz de fazer o seu coração acordar. Sentada em sua cama, ela o via passear livremente pelo quarto enquanto falava sobre música ou sobre como amava organizar cada espaço da casa. Pressentia que a gargalhada dele ainda pairava no ar, que o cheiro dele estava impregnado em sua pele, que a voz – grave e baixa – ainda era audível ao pé ouvido... E sorria, enquanto via a si mesma assistindo filme deitada naquele peito, ou sobre como observava a t e n t a m e n t e cada palavra por ele pronunciada, ao passo que se deliciava com o carinho que ele fazia em seu cabelo.
Bem mais do que ser feliz, estar com ele fazia com que Núria ficasse em paz. Com Juan, sabe-se lá por qual razão, o peito decidira se abrir. Ali ela não precisava das inúmeras faces que havia criado para sobreviver entre um cafajeste e outro. Com ele, ela se via tal qual sempre fora: toda coração.
O medo que sentia provinha exatamente disto: a vulnerabilidade de estar tão exposta e inteira. Mas o que é a vida, senão um ciclo permanente de riscos?
Entre devaneios, recordava-se do beijo e das mãos que acalmavam e excitavam ao mesmo tempo, das imperfeições simples e perfeitas, de como ele deitava em seu colo e adormecia, fazendo seu corpo inteiro estremecer.
Mais do que paixão, Juan a trouxera de volta a si. Mais do que desejo, o abraço dele trazia consigo uma calma imensurável. O sorriso e cumprimento espontâneos ao vê-la faziam o coração verdadeiramente sorrir.
Juan era um homem raro, concluía Núria, à medida em que refletia sobre o fato de ele ter chegado no momento exato, mesmo que não fosse para ficar.
Agradecendo por todo o bem que ele a fizera ver (e sentir) novamente, ela sorriu ao mesmo tempo em que uma lágrima solitária percorreu-lhe o rosto. É que assim, tão longe, tudo era saudade.


"E eu que pensei que eu sabia tudo,
Mas, se é você, eu não sei nada..."

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