Cometa

 


Enquanto olhava o sol no horizonte, Núria pensava no quanto a vida havia se transformado em tão pouco tempo. Tantas mudanças inesperadas, externas e internas. Tantas reconstruções. Quantos sentimentos...

Ali, admirando o Astro-Rei que lentamente se despedia para brilhar em outro lugar, ela se lembrava de instantes que ficaram gravados em seu íntimo. Mesmo em meio ao furacão que vivera e que deixara tudo fora de ordem, ela havia sido feliz. Como há tempos não se recordava.

Diante da escuridão em que esteve envolvida, aquele encontro inesperado, predestinado a acontecer no tempo e no espaço, surgiu  brevemente e bagunçou, iluminou, reorganizou, transformou e dissipou-se. Não sem antes deixar marcas profundas em tudo o que ela se tornara.

Colocando a música que a fazia relembrar de cada instante, Núria se certificava de todos os sentimentos que aquela aparição provocara. Era como se, pela primeira vez em muitos anos, ela estivesse viva novamente. O frio na barriga, o arrepio na pele, a calmaria no coração. 

Tudo ali era suficientemente bom, ainda que intenso. Cítrico, embora suave. Visceral, mesmo que leve. Havia um magnetismo que os atraía, tal qual um imã, uma química que parecia capaz de curar todos os males físicos e espirituais, uma alquimia... Por isso, ela não conseguia entender nem tampouco explicar. Não há como mensurar o que não se compreende...

A única certeza que ela possuía era a de que, em algum lugar do Universo, aquelas duas almas estavam predestinadas a se conhecer. Para conviverem por um tempo determinado e aprenderem uma com a outra. Para estabelecerem uma ligação que ia além das convenções comuns.

Foi assim por algum tempo: conversas, olhares, sorrisos, cheiros, toques, alma. E então, um dia, o astro-rei resolveu que era hora de partir. Havia muito ainda a aprender, descobrir e iluminar. Talvez outros olhares para encantar. E assim ele foi. Tal qual um cometa. Que inebria, envolve, encanta, mas desaparece.

Pensando nisso, Núria sorriu. Não seria a primeira vez que experimentaria tais sentimentos. E nem a última. Por isso, olhando para o derradeiro raio de sol que sumia no horizonte, ela agradeceu ao Universo o encontro e o que ele proporcionou, juntou suas coisas e entrou em casa. O dia havia findado, mas ainda havia muito a fazer.

 

 

 "Enquanto você dorme eu cheiro você
Pra guardar na memória o tom
Do meu veludo cor marrom, ai..."

 

Comentários

  1. Sensacional! Estava com saudades da querida Nuria!

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  2. Talvez a Nuria, também estivesse com saudade de si!

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