Sobre o engano
No princípio, havia luz. Era como se finalmente, depois de muitos anos, Núria estivesse em casa. O aconchego, o sorriso largo, as conversas profundas, o abraço caloroso... Tudo ali era motivo para, enfim, aquietar e sentir.
No início, havia sentimento,
havia química, vontade de estar perto e promessas de um futuro bom. Era
recíproco. Feliz e intensamente recíproco. E Núria se sentia sortuda – a mais
ditosa entre as mulheres. Era nisso que ela acreditava – ou queria acreditar.
O fato é que a verdade sempre
estivera diante de seus olhos, estampada a cada sinal, a cada recusa,
justificativa, mudança repentina, a cada afastamento, a cada silêncio...
Entretanto, ela preferia não ver. Deixara-se levar pelas possibilidades que
imaginara, pelo toque que sentira, pelas declarações que ouvira e, mesmo sem
perspectiva, imaginara como era bom encontrar alguém que a visse e que a
sentisse por inteiro.
Mas ele não a via. Não da forma
como ela pensara. Tudo fora milimetricamente calculado para acontecer: as
palavras doces, o afeto, o fazer sentir e, posteriormente, a distância, a
mudança de atitude, o abandono. Tudo pensado para funcionar: o pedido de
desculpas, a explicação enganosa. Tudo premeditado para mantê-la disponível: os
comentários, os elogios, as expressões de desejo, a indecisão, a vontade de não
machucá-la, o “eu te amo” intencional.
Estava tudo ali. Claro. Límpido.
Transparente desde sempre. Porém, Núria não enxergava. Permanecia imersa na
convicção de que encontrara amor puro. E ainda que não fosse possível vivê-lo
plenamente (não sabia ao certo por que), era bom não estar equivocada sobre o
que sentiam.
Mas ela estava. E muito. Para crer
nisso, fora preciso que o Universo tornasse indubitável o que havia, que
retirasse os véus ainda existentes e escancarasse a verdade. Sem deixar
dúvidas, sem meios-termos.
E Núria chorou, porque doía fundo
ter se enganado tanto. Era doloroso demais ter permitido e aceitado tantas
migalhas em prol de um quase, ou pior, de algo que nunca existiu.
No entanto, ela, colecionadora de
decepções, permitiu-se sentir tudo o que havia para sentir: a dor, as lágrimas,
a frustração que se refletia fisicamente no seu corpo, as dores provocadas pelos pensamentos acelerados em sua mente. Por uma
noite.
E no dia seguinte, juntou seus
cacos, remontou os pedaços e seguiu, pois não sabia ser de outra maneira.
Recomeçar fazia parte de quem ela era, do que se tornara, e não seria agora que
ela iria esmorecer.

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