Sobre se perder



Estava determinado: paixão era um tema proibido entre eles. Beijar podia, cuidar podia, mas se apaixonar não. Porque a paixão estraga a leveza que é se relacionar sem pensar em obrigações, agrega uma série de regras dispensáveis, que trazem consigo o peso de pensar além.
E o amanhã ali não existia, muito menos o futuro, este que nos arranca da realidade e nos transporta para um mundo de suposições, idealizações e flagelos.
Ririam juntos, comemorariam a vida, compartilhariam alguns momentos, mas nada que ultrapassasse a linha tênue entre a superficialidade e a paixão. O momento em que se quer aprofundar nos mistérios do outro, o instante em que há o desejo de eternizar o abraço e que a vontade de rever torna-se uma necessidade eram considerados faltas graves e deveriam ser evitadas.
Construíram uma série de restrições e prosseguiram. Assim, carregando no peito a certeza de que eram inatingíveis. Leves, orgulhosos da conquista que é não se envolver. A culpa não era deles, afinal, de tão calejados pelo destino, a saída era manter distância e evitar o que já haviam experimentado noutro tempo.
Um tempo distante, em que os pés não estavam fincados no chão. Um tempo em que talvez sonhassem com tudo o que agora renegam.
Apaixonar-se era proibido – seguiam dizendo. E  entoar tal ordem para o cérebro era tarefa simples, mentir para si mesmo também. Contudo, na prática, os lábios revelavam o que eles mais temiam: havia um risco enorme de se perderem. Ali, no toque mais simples.
Aqueles lábios... Tais quais um labirinto, como diz a letra da canção, atraem instintos, desejos... mas paixão... (psiu!) essa não.




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