(Des)gosto


Acontece e é assim que se aprende, menina.
Ellie descia correndo as escadas refletindo sobre o peso que é sentir. Esse sentir doído que atravessa o peito e enche a garganta de nó. Esse sentir errado que, em vez de tornar leve, transforma em  peso, em pesar.
Ela saía de mais uma reunião, o cérebro fervilhando, a garganta ardendo, os olhos em chamas, a alma em frangalhos. Não fora fácil vestir-se de racionalidade sabendo que lá estava ele a observá-la fixamente. O seu olhar, mais penetrante do que um punhal, soubera decifrar cada gesto, cada falácia: desde o sorriso forçado à imensa falta de concentração.
Pensar nele mexia com seu íntimo. Ainda não era capaz de imaginá-lo distante como de fato era agora, um estranho em meio a tantos outros. Ainda não havia apagado a imagem dele sorrindo para ela, piscando de um modo maroto, ou das mãos sedentas buscando o seu corpo durante a noite. Não havia se esquecido dos afagos no cabelo, da risada escandalosa, do jeito observador, da barba a roçar-lhe a nuca, dos sussurros ao pé do ouvido...
Contudo, ela sabia que não dava para dividir o que sentia, não dava para vendar os olhos e simplesmente seguir. Ser tanto e ainda assim não querer muito já não a satisfazia e mesmo gostando e mesmo sem esquecer e mesmo querendo muito e mesmo desejando era o momento de ir embora.
Portanto, ao sair daquela sala, Ellie já sabia que não poderia voltar. Por essa razão, viajar era algo certo, conhecer gente nova também. Talvez um gole de whisky para acalmar ou para fazer esquecer de que sentir dói. E que só se deixa de sentir recomeçando.



Comentários

  1. Verdade! Mas o que nos mata é o tempo que levamos pra recomeçar e deixar de sentir.
    Não podia ter escolhido música melhor! ;)
    Ótima semana pra ti!

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  2. Inaí, que lindo!!!
    Me peguei vendo a cena desta bela moça em minha mente, sonhadora e ao mesmo tempo pé no chão.
    Resignada por sua racionalidade e determinada a seguir em frente.
    parabéns!!!
    Bejos.

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