Vestígios





Núria olhava para si mesma. Havia cicatrizes em cada poro e um medo inexplicável de se ferir novamente.
Durante anos, proclamara a segurança obtida, a ausência de preocupação com questões tão ínfimas, a autossuficiência adquirida quando o assunto era relacionamento. Contudo, carregava consigo as experiências fracassadas, as angústias e decepções sofridas e isto se acumulara ao longo do tempo.
Como não se permitia envolver, deixara de pensar na fragilidade. Admitia-se forte, bem resolvida, curada. 
Agora, porém, via a fraqueza incrustada em sua pele, a insegurança gritando em seus ouvidos, passeando em suas veias.
Era capaz de sentir o cheiro do medo e de quase tocá-lo, tão palpável ele parecia ser. Via-o ao redor, rondando, aguardando o momento exato para atacar. Como um monstro ctônico, surgindo do subterrâneo e observando, ele espreitava e sorria. 
Não havia sido fácil e estava longe de ser. Foram muitos naufrágios e apostas equivocadas que geraram instabilidade.
Quando o sentimento estava ausente, tranquilo era o prosseguir. Sem olhos nos olhos, sem mãos que se tocam e se reconhecem, não havia dúvidas nem incertezas. Somente o hoje importava. Só o corpo interessava. Nesse campo não há perigos, apenas a brevidade de coisas sem importância.
Entretanto, amar era um risco constante. Estar envolto por uma áurea de grandeza despertava os antigos traumas, revelava inseguranças. Amar dava medo. Ressaltava a pequenez de quem não sabe ao certo o que fazer tendo tanto em suas mãos.
Este sentimento representava estar salva e, ao mesmo tempo, exposta. Uma vulnerabilidade necessária para se livrar do que outrora fizera mal e fora tudo, menos amor.






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