Alarme
Ali não existia perfeição.
Ao contrário: o que há são defeitos, sangue, calor. Um mundo inteiro pulsando no peito.
Olhando-se no espelho, Clara refletia sobre a própria essência. Misto de loucura e sanidade, leveza e angústia.
Sentia a intensidade exalando pelos poros, tomando-lhe vagarosamente o corpo, as mãos envolviam-na por completo, possuindo e preenchendo cada espaço existente, como se para saborear o gosto da posse. Gosto acre. Denso.
Por vezes desejava isolar-se. Sem ver nem ouvir ninguém. Silenciar as vozes do mundo, trancar-se e conviver apenas com seus pensamentos, séries, músicas e o vinho preferido.
Em outros momentos, gritava, tentando despejar a força que já não suportava armazenar. Ora queria colo, ora briga.
Em outros momentos, gritava, tentando despejar a força que já não suportava armazenar. Ora queria colo, ora briga.
Amar ou odiar. Chorar ou sorrir. Ser feliz ou triste. Querer ou desdenhar. Sem meios-termos ou meias escolhas.
Clara andava na linha tênue entre o silêncio e o alarme, o estar e o partir, entre o agora e o nunca mais.
Seus gritos nem sempre eram audíveis aos ouvidos alheios, mas provocavam estragos incontáveis. Afinal, não era fácil fazer com que eles passassem despercebidos.
Seguia assim: carregando nos ombros o peso de não se contentar com meias amizades, verdades ou palavras; muito menos com parte de sorrisos, planos ou amores.
Seu copo nunca estava pela metade. Cheio demais ou extremamente vazio, ele simbolizava o fato de que, para ela, nenhuma bebida, escolha, sensação e sentimento seriam bons caso não fossem exauridos.
Preferencialmente quente ou gelado. O morno? Ah, meu caro... Este ela lança longe.

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