Amar? Só quando convém



Olhando ao redor, assusta o fato de os homens estarem envoltos em tanto ódio. Creio que muitos não estudaram história ou, se o fizeram um dia, esqueceram-se do quanto a intolerância pode nos conduzir por um terreno instável, perigoso e obscuro.
Não somos pares nem iguais, muito menos humanos. Disseminamos ódio e deliberamos sobre quem deve ser salvo e, em contrapartida, sobre quem será condenado – não ao fogo eterno – pois fazemos questão de que o calvário se inicie aqui.
Sabe, Senhor, têm sido dias difíceis. Os mandamentos de amor, respeito, igualdade e fraternidade pregados há mais de dois mil anos foram transformados em conceitos distantes e inacessíveis. Atingi-los, conforme quem detém o poder sacro nas mãos, requer atender a muitas exigências. De acordo com eles, não basta a cada um pegar a sua cruz, abandonar a si mesmo e o seguir. Sim, Senhor, eles falam em seu nome e, em muitos casos, não é a sua voz que ouço.
Hoje os símbolos são mais sagrados do que a prática e esta se encontra cada vez mais longínqua. O discurso não se alia à experiência vivida. Está obsoleto o recado de que a fé sem obras é morta. Estranho, não?! No seu tempo também foi assim? Os fariseus também apresentavam o mesmo comportamento?
O mais estranho, porém, é que as diferenças ainda são cruelmente combatidas. Os leprosos continuam afastados dos templos, as prostitutas sendo apedrejadas e os mais pobres perseguidos. Esqueceram-se de que a sua mensagem dizia abertamente que "quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra."
Por falar nisso, Senhor, a humanidade adora apedrejar e cuspir no rosto alheio. Ah, também gostam muito de ferir com lanças uns aos outros. A única diferença é que atualmente substituíram o metal por algo muito mais poderoso e letal: as palavras. Elas têm um poder perturbador.
Talvez o Senhor precise mesmo voltar – e bem mais rápido do que imaginávamos, pois caminhamos para um novo cenário de cruzadas. 
Precisa retornar para tentar nos ensinar a amar e a viver o amor com os nossos semelhantes. Mais uma vez. Para nos mostrar que, quando olharmos para o outro como igual, as teorias darão lugar à vivência e que, quem sabe assim, consigamos conviver em paz. 

Só fique alerta, Senhor. Não ande com quem não deve quando voltar, pois boa parte da galera que o representa não hesitará em crucificá-lo novamente.


"Difícil era quem aceitasse
Um cara que já matou..."

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