Cold memories
"Though winds of change
Are throwing wild and free
You ain't seen nothing like me yet." (Adele)
Era somente mais uma noite de inverno: absurdamente fria.
Embora o vento gélido estivesse no fim e fosse possível notar as mudanças que em breve seriam trazidas pela primavera, era visível o estrago que o gelo causara. Jardins congelados, flores murchas – que provavelmente ressurgiriam esplendorosas– espalhadas pelo quintal...
Pássaros migravam, depois retornavam e, enquanto isso, Núria hibernava. Entorpecida em sua toca, entre sonhos surreais e promessas perdidas. Entre o limiar do real e o imaginário.
Ausente de si mesma, imergida em lembranças, aguardava um alívio permanente, algo que dissipasse o frio excruciante que sentia.
E assim mergulhava nas ideias guardadas, vagarosamente adentrava no mais profundo daquilo que jamais ousara admitir.
Em sua mente, a mesma lembrança: caminhava por estradas até chegar ao local do qual jamais esquecera. Em instantes, via-se novamente sentada no velho sofá de tecido, o cobertor aquecendo os corpos, o mesmo filme passando na televisão, os sorrisos estampados – claros como o sol. Observando-se agora, ela seria capaz de descrever minuciosamente cada batida do coração e o que sucederia em seguida. Era capaz de sentir novamente a inquietação já conhecida. Os pensamentos, devoradores, eclodindo como meteoros, absolutos.
Refreava a vontade instantânea de externar as frases formadas, prontas para serem ditas.
Enquanto o olhava de soslaio, registrava na memória o que de melhor poderia ser abstraído daquele momento. A cumplicidade inalterada, o sorriso tão belo e simples, os defeitos palpáveis e reais e... É, o tal sentimento também estava presente.
De repente, um acontecimento do qual ela já não se recordava invadiu seu corpo, anestesiando-lhe os sentidos. Depois de se lembrar, ainda inerte, percebera o quanto se desviara do que fora um dia.
A singularidade daquele gesto não mais existia em seu cotidiano. Não havia quem a olhasse daquele modo, arrancando-lhe suspiros inusitados ou sorrisos sinceros. Não havia quem lhe afagasse os cabelos daquela maneira, olhasse fundo em seus olhos e lhe beijasse a testa como se ela fosse algo sagrado, digno de respeito e admiração.
Núria sentia o coração quase lhe saltar do peito, numa onda de êxtase e profundo pesar. Reviver aquela cena não fazia parte de seus planos, ainda mais depois de ter queimado tanta tralha e se mudado para uma nova casa. Mas o que nem ela sabia é que o inverno se aproximava a cada amanhecer.
Apesar disso, manteve-se firme até o fim. Ainda havia muito que ouvir.
Torcia para que ela mesma, naquele tempo passado, não pronunciasse as frases que tinha decorado. Se houvesse como, impediria que o discurso fosse consumado. Mas não houve... Então, reviu-se não aguentar e dizer o que há muito reprimira. Viu a famosa promessa sendo proferida sem que ela nada pudesse fazer...
Juramento cumprido, prenúncio dos tempos atuais ou não, havia dado certo. Mesmo sem saber, a sua profecia funcionara e nem a gargalhada despreocupada do outro, nem a afirmação de que ela era jovem demais para saber o que implicaria cumprir o que prometera foram capazes de evitar (e adiar) o destino.
Tinha alcançado o que assegurara, não sem antes trilhar caminhos tortuosos demais. Naquele tempo, Núria não sabia o que teria de enfrentar para cumprir sua jura. Hoje, certa estou de que ela pensaria muito antes de pronunciar tais palavras.
Muitos anos depois, ainda contemplava os efeitos de sua displicência.
Entretanto, essas são coisas que não se deve considerar, afinal, foi só mais uma promessa numa noite gélida de inverno.
Are throwing wild and free
You ain't seen nothing like me yet." (Adele)
Era somente mais uma noite de inverno: absurdamente fria.
Embora o vento gélido estivesse no fim e fosse possível notar as mudanças que em breve seriam trazidas pela primavera, era visível o estrago que o gelo causara. Jardins congelados, flores murchas – que provavelmente ressurgiriam esplendorosas– espalhadas pelo quintal...
Pássaros migravam, depois retornavam e, enquanto isso, Núria hibernava. Entorpecida em sua toca, entre sonhos surreais e promessas perdidas. Entre o limiar do real e o imaginário.
Ausente de si mesma, imergida em lembranças, aguardava um alívio permanente, algo que dissipasse o frio excruciante que sentia.
E assim mergulhava nas ideias guardadas, vagarosamente adentrava no mais profundo daquilo que jamais ousara admitir.
Em sua mente, a mesma lembrança: caminhava por estradas até chegar ao local do qual jamais esquecera. Em instantes, via-se novamente sentada no velho sofá de tecido, o cobertor aquecendo os corpos, o mesmo filme passando na televisão, os sorrisos estampados – claros como o sol. Observando-se agora, ela seria capaz de descrever minuciosamente cada batida do coração e o que sucederia em seguida. Era capaz de sentir novamente a inquietação já conhecida. Os pensamentos, devoradores, eclodindo como meteoros, absolutos.
Refreava a vontade instantânea de externar as frases formadas, prontas para serem ditas.
Enquanto o olhava de soslaio, registrava na memória o que de melhor poderia ser abstraído daquele momento. A cumplicidade inalterada, o sorriso tão belo e simples, os defeitos palpáveis e reais e... É, o tal sentimento também estava presente.
De repente, um acontecimento do qual ela já não se recordava invadiu seu corpo, anestesiando-lhe os sentidos. Depois de se lembrar, ainda inerte, percebera o quanto se desviara do que fora um dia.
A singularidade daquele gesto não mais existia em seu cotidiano. Não havia quem a olhasse daquele modo, arrancando-lhe suspiros inusitados ou sorrisos sinceros. Não havia quem lhe afagasse os cabelos daquela maneira, olhasse fundo em seus olhos e lhe beijasse a testa como se ela fosse algo sagrado, digno de respeito e admiração.
Núria sentia o coração quase lhe saltar do peito, numa onda de êxtase e profundo pesar. Reviver aquela cena não fazia parte de seus planos, ainda mais depois de ter queimado tanta tralha e se mudado para uma nova casa. Mas o que nem ela sabia é que o inverno se aproximava a cada amanhecer.
Apesar disso, manteve-se firme até o fim. Ainda havia muito que ouvir.
Torcia para que ela mesma, naquele tempo passado, não pronunciasse as frases que tinha decorado. Se houvesse como, impediria que o discurso fosse consumado. Mas não houve... Então, reviu-se não aguentar e dizer o que há muito reprimira. Viu a famosa promessa sendo proferida sem que ela nada pudesse fazer...
Juramento cumprido, prenúncio dos tempos atuais ou não, havia dado certo. Mesmo sem saber, a sua profecia funcionara e nem a gargalhada despreocupada do outro, nem a afirmação de que ela era jovem demais para saber o que implicaria cumprir o que prometera foram capazes de evitar (e adiar) o destino.
Tinha alcançado o que assegurara, não sem antes trilhar caminhos tortuosos demais. Naquele tempo, Núria não sabia o que teria de enfrentar para cumprir sua jura. Hoje, certa estou de que ela pensaria muito antes de pronunciar tais palavras.
Muitos anos depois, ainda contemplava os efeitos de sua displicência.
Entretanto, essas são coisas que não se deve considerar, afinal, foi só mais uma promessa numa noite gélida de inverno.

Olá Inaí!
ResponderExcluirNosso tenebroso inverno (A Ausência de seus textos...). É substituido pela primavera de um texto tão belo...Aqui realmente me deleito por causa da sua magistral capacidade de nos oferecer textos tão maravilhoso de se ler...Obrigado por esta oferta!
"Muitos anos depois, ainda contemplava os efeitos de sua displicência.
ResponderExcluirEntretanto, essas são coisas que não se deve considerar, afinal, foi só mais uma promessa numa noite gélida de inverno."
Perfeito e tão... frio!
Mas é lindo!
Inaí, me faz um favor?
Vota na minha foto?
http://www.eusouinfomaniaco.com.br/image/gallery
MAIRA FRANÇA DE SOUZA (Clique na foto para abrir, deve tá lá nas últimas pags)
Sei que é chato, mas tô precisando da sua ajuda.
Precisando, fala comigo tá bem?!
BjO
Oi Inaí, adorei seu blog e a maneira como você escreve. Muito bom! ;)
ResponderExcluirhttp://meublogtais.blogspot.com/