Dissimulada


Jéssica vai à igreja. É doce, meiga, delicada, religiosa. Uma mulher de verdade, os puritanos diriam.
Não usa decotes, não fala palavrões, tem horror às mulheres consideradas fáceis, repudia quem maltrata os animaizinhos, gosta de usar rosa, de brincar com criancinhas indefesas, de ser polida, educada e amável por onde passa. Não bebe, é contida. Não beija de língua, não permite amassos, pretende casar virgem... Pelo menos é nisso que ela quer que acreditem.
Não admite excessos: diante dos outros, seus atos são comedidos, calculados, corretos.
Observando-a a fundo, entretanto, percebe-se a farsa ela representa. Não ingere bebidas alcoólicas, mas seus lábios destilam veneno. Não fala palavrões, contudo, sua alma está cheia de maldade. Faz-se de recatada, porém, envolveu-se com o namorado de uma "irmã" em um retiro espiritual e já fez loucuras na cama com o ex-namorado, mesmo afirmando o contrário. 
Diz que pretende ter um namoro com propósito e, sem poupar esforços para tanto, passa por cima de quem quer que seja. Não nota que suas escolhas magoam, ferem, revoltam.
A verdade é que ela se esconde, como muitos, atrás da máscara da religião. Comete atos inexplicáveis com a desculpa de estar fazendo a vontade divina, a qual não possui, em momento algum, uma justificativa plausível para existir. 
Jéssica esqueceu-se de que a premissa do cristianismo é o amor ao próximo e não aos próprios anseios. De que ignorar os sentimentos alheios em nome de um propósito para a vida é egoísmo e que este sentimento não condiz com os preceitos que ela afirma crer. 
Esqueceu-se também de que o discurso deve estar aliado à prática vivida. Que de nada adianta ser meiga e doce, se conseguir afastar as pessoas que verdadeiramente estiveram ao seu lado, sendo amigas. De que de nada lhe servirá a religião e as orações, se o coração não conseguir ser melhor.
Serão inúteis para ela todas as noites na igreja e todos os louvores se a vida não for reflexo do amor que ela prega nas redes sociais.
Ela realmente acredita que o fato de ter uma religião a faz ser uma boa pessoa. Que estar ao lado de alguém significa amizade – mesmo quando se cobiça o que é (ou já foi) do próximo. Talvez não tenham ensinado a ela que noções de amizade, bondade, respeito e caráter não se aprendem num templo. Nasce-se com algumas, outras são reforçadas no convívio familiar e durante todo o caminho percorrido aqui. Portanto, crença nenhuma é capaz de transformar o que por dentro é podre.

Jéssica ainda não sabe, mas o seu fim é previsível: sozinha e abandonada por aqueles que um dia lhe estenderam a mão e que ela, sem pestanejar, fez questão de trair.

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