Amar: construir, desconstruir e reconstruir
Olhando ao redor, era tudo incerteza. Havia carregado consigo, por anos a fio, a convicção de ser suficiente a si: a paz que cultivava, seus livros, poemas e canções, a vida plena e boa.
Ainda jovem, aprendera a valorizar a própria companhia. Nada de obrigações, satisfações ou desencantos. Seu coração, coisa de aço, estava firme e blindado. Perder essa segurança era abdicar a tudo o que havia cultivado.
Gloriava-se por não se envolver. Vivia relações rasas e passageiras, de modo que a distância fosse mantida. Apaixonar-se significaria estar fraca, repetia como um mantra.
A personalidade firme, as decisões irrevogáveis e a fortaleza que a envolveram, contudo, trouxeram mais feridas do que jamais imaginara.
Ao renunciar às obrigações, desistira também dos pequenos prazeres que isto envolvia: dormir abraçado, dançar na chuva, tomar sorvete em dias calorosos, mensagens inesperadas, frio na barriga ao encontrar o ser amado, o coração feliz por imaginar um novo início.
Conseguira sexo do jeito que quisera, mas não intimidade. Arrancara fluidos, gozo e suor, mas não alcançara almas.
Obtivera, em instantes mínimos, a satisfação do corpo, os tremores, o orgasmo, mas se tornara vazia de bons sentimentos.
As mãos percorriam corpos, mas não se entrelaçavam. Lábios se tocavam, mas não sentiam. Corpos se abraçavam, contudo, estavam longe de transbordar.
Sendo assim, Clara percebera que tivera tudo, menos companhia. Resolvia seus problemas, trabalhava, sustentava a família, ria com os amigos, mas, vez ou outra, sentia falta de ter com quem partilhar seus sonhos, frustrações, decepções e vitórias.
Hoje tinha a certeza de que amar era preciso, bem como livrar o coração das mágoas, dos medos e prosseguir. Além – e apesar de tudo – se permitir, porque diferentemente do que diz a canção, amar é uma escolha. Uma construção.

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