Tão contrário a si
Clara entrou na sala a tempo de ouvir o amigo confessar que não sabia mais se envolver, que fugia ao menor sinal de apego e aproximação.
Para ela, que se preservava há anos, escutar aquela frase fez seu coração sossegar. Não estava descrente sozinha. Havia tanta gente naquele Titanic amoroso que ela mal podia mensurar.
Tanta gente de coração dilacerado, precisando recomeçar e sem saber ao certo como. Gente de confiança despedaçada e de fé traída, que jurou nunca mais se apaixonar.
Gente que sente medo se o telefone toca no dia seguinte, se uma mensagem é recebida. Que desaprendeu, pouco a pouco, a ser leve e se deixar levar pelo encanto da paixão.
Assim, reúnem seus cacos, trapos e caminham. Oferecem o mínimo que podem: um beijo na balada, um puxão de cabelo e talvez uma boa noite de sexo. Sorrisos passageiros, entrega rasa. Mais do que isso? Nem pensar.
Essas pessoas lotam as redes sociais e assumem a sua realização por serem fortes. Resistentes. Racionais. Donas de si.
De balada em balada, bocas em bocas, corpos em corpos, perdem-se, até que tal comportamento já não dura. Não basta.
Como uma droga, precisam de mais, mas não sabem como conseguir. Dependentes da autossuficiência que criaram, esquecem-se de como é belo – embora perigoso – se envolver.
Com sua xícara de café na mão, Clara refletia sobre tudo isso. Sobre o fato de que, muitas vezes, para se fortalecer novamente era preciso voltar a ser vulnerável.
Sorriu. Afinal, a vida era uma enorme contradição: aqueles que não querem e fogem do amor são os que mais precisam dele.

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