Be here
O mirante, o vento batendo no rosto e a mente trabalhando sem cessar. O porvir assustava, mas esse é apenas fruto das escolhas de hoje. O presente é que tornava Clarice apreensiva: o desejo de sorver todas as urgências momentâneas, de proferir as palavras que ficaram camufladas, de desatar os nós.
Muito passava enquanto ela, indecisa que era, traçava planos e tentava consertar o que não sabia ao certo.
O problema é que o tempo arrasta as possibilidades segundo a segundo e traz a incerteza do amanhã. Leva consigo o que ela imaginava antes de dormir, o que programava na hora do cappuccino. Ele carregava, inclusive, todas as conjecturas que ela fazia agora antes mesmo que pudessem ser escritas. Dinâmico e vivo, não espera pelo dia seguinte.
Enquanto esperava acontecer, corria o risco de ver o depois desfeito. De ter, escorrendo pelas mãos, as ideias que vinha cultivando ao longo dos dias: como abordar, quais palavras utilizar, o momento certo para isso...
Clarice não sabia como Pedro estava desde que se afastaram e nem como ele reagiria depois que ela se pronunciasse. No entanto, ela precisava desfazer esse nó que lhe atravessava a garganta, o mesmo que a fazia conferir, a cada minuto, a foto dele no tal aplicativo, deslizar o dedo pelo teclado e desistir segundos depois.
O medo de vê-lo frio a afastava da decisão de procurá-lo. Contraposta a isso, estava a vontade de conversar com ele novamente.
Relembrando os poucos instantes vividos, o som da voz, o toque hábil das mãos, a boca insistente e segura, a ironia admirada e a gargalhada gostosa, ela engoliu o orgulho, encheu-se de coragem, pegou o telefone, digitou e enviou o que, minutos antes não conseguiria:
"Saudade. Queria que você estivesse aqui."
Bem mais do que todas as palavras ensaiadas, essas expressavam a verdade sentida por ela nesse momento.
"And if you were nearer
It would all be clearer
It would all be clearer
How I wish that you were here..."

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