Espécie em extinção
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| Créditos: Khalid Alwaih / Reprodução: Jornal GGN |
De repente, é como se uma venda tivesse sido retirada dos nossos olhos.
Você, Aylan, vítima de uma guerra que já dura quatro anos, de um partido que comanda há quase cinquenta, de um país marcado por intensas invasões, demarcações de território, exploração de bens naturais e de um mundo extremamente cruel e desumano, fez um nó se apertar em nossa garganta.
Seu corpo pequenino, na praia e já sem vida, tornou-se emblema da dor, do desespero e do sofrimento do seu povo, que padece na miséria, que tenta encontrar abrigo, que é tratado como bicho e morre encurralado, sem esperança.
Seu corpo à beira do mar nos faz refletir sobre o quanto temos errado. Somos um projeto fracassado, pequeno.
Assim como você, mais de 140 mil compatriotas já morreram. Entre eles, cerca de 7 mil crianças tiveram sonhos furtados e futuros usurpados, pois não há amanhã para quem é obrigado a trocar canções infantis por sons de balas. Não há alegria quando as ruas movimentadas dão lugar à ruína.
| Fonte: Revista Exame |
Não há inocência quando, para uma criança, uma câmera fotográfica é confundida com uma arma.
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| Créditos: Osman Sagirli / Reprodução: Globo.com |
Como você, muitos morrem todos os dias, Aylan, mesmo que em vida. Morrem porque deixam de crer na beleza. Morrem, pois a pureza lhes é tirada cedo demais. Morrem, porque enxergam – ainda tão pequenos – a pior parte da humanidade.
Deveria ser crime fazê-los sofrer. Deveriam nos punir por arrancar-lhes os sonhos, a alegria, a doçura, a beleza, a vida.
Que as minhas lágrimas se unam a todas aquelas que, nessa semana, choraram por ti.
Que a dor do seu pai se transforme em luta. Que a sua partida não represente apenas mais números e estatísticas.
Que algo seja feito.
Que vidas consigam valer mais do que vistos.
E que você esteja – finalmente – em paz.
"How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look?"


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