Empodere-se
A menina tem 12 anos. Pouco mais de uma década. Poderia ser sua filha, sua irmã, sua aluna, sobrinha, amiga, prima. Leu absurdos nas redes sociais, homens propagando uma cultura de abuso que ultrapassa os limites do tempo, mas, infelizmente, ela não é a única.
Ana tinha onze anos quando sofreu o primeiro assédio. Na mercearia perto de casa, um homem apalpou o seu corpo enquanto ela esperava os chicletes que havia pedido. Pela primeira vez sentiu nojo de si e medo do que poderia ocorrer. Culpou-se por estar de short e não de calça jeans.
Clara. Nove anos. Foi violentada pelo tio. Ele começou pegando em suas partes íntimas quando a sentava em seu colo. Acabou em estupro. Ela foi considerada mentirosa pela família. Nunca puniram o culpado. Sentiu-se sozinha, sem apoio, indefesa. Só depois de muito tempo entendeu o que aconteceu.
Ana. Vinte anos. Foi estuprada pelo namorado, que não acreditou quando ela disse que era virgem. Ele tapou a boca da jovem e continuou, ignorando a afirmação dela de que sentia dor e o pedido para que parasse. Viveu dias de angústia, demorou anos para novamente se entregar a alguém. Sentiu-se culpada.
Marta. Trinta e cinco anos. Foi assediada no ônibus por um homem que se esfregava nela. Sentiu revolta. Brigou. Foi chamada de louca por ele e pelos passageiros.
Carla. Treze anos. Enviou fotos nuas para um menino com quem conversava pelo WhatsApp. Dias depois, viu suas fotos divulgadas entre as pessoas da comunidade. Todos olhavam-na como se fosse uma vadia. Ela se responsabilizou por confiar nele. Ninguém sabe, mas, esta noite, ela tomará remédios e se suicidará.
Maria. Quarenta anos. Apanhou do marido, que chegou bêbado em casa. Teve três costelas fraturadas e marcas invisíveis que o tempo não cura. Chorou olhando para o filho de seis anos e se responsabilizou por não ter escolhido um homem melhor.
Cíntia. Vinte e seis anos. Abordada a dois quilômetros de casa, ao retornar da faculdade, por um homem que a subjugou e a estuprou em um terreno baldio. Não teve ajuda. Chorou sozinha. Na delegacia, perguntaram a ela se o ato realmente havia sido sem consentimento. Se não conhecia o estuprador. A CCJ diz que ela que deve provar, mediante exame, a violência que sofreu e só então será atendida pelo sistema de saúde. Além disso, o projeto proposto na Câmara dificulta o acesso à pílula do dia seguinte. Cíntia sente-se indignada, impotente, abandonada por quem deveria protegê-la, ampará-la. Tem medo de engravidar.
Vera. Trinta e três anos. Professora. Ao falar sobre violência sexual com os alunos, ouviu piadas cruéis sobre estupro. Sentiu-se deprimida e descrente. Eles não sabem, mas o padrasto abusou dela quando era criança.
Maria. Quarenta anos. Apanhou do marido, que chegou bêbado em casa. Teve três costelas fraturadas e marcas invisíveis que o tempo não cura. Chorou olhando para o filho de seis anos e se responsabilizou por não ter escolhido um homem melhor.
Cíntia. Vinte e seis anos. Abordada a dois quilômetros de casa, ao retornar da faculdade, por um homem que a subjugou e a estuprou em um terreno baldio. Não teve ajuda. Chorou sozinha. Na delegacia, perguntaram a ela se o ato realmente havia sido sem consentimento. Se não conhecia o estuprador. A CCJ diz que ela que deve provar, mediante exame, a violência que sofreu e só então será atendida pelo sistema de saúde. Além disso, o projeto proposto na Câmara dificulta o acesso à pílula do dia seguinte. Cíntia sente-se indignada, impotente, abandonada por quem deveria protegê-la, ampará-la. Tem medo de engravidar.
Vera. Trinta e três anos. Professora. Ao falar sobre violência sexual com os alunos, ouviu piadas cruéis sobre estupro. Sentiu-se deprimida e descrente. Eles não sabem, mas o padrasto abusou dela quando era criança.
Beatriz, Marli, Júlia, Joana. Idades diferentes. Julgadas pelo tamanho do short ou pelo decote que usavam. Chamadas de gostosa no meio da rua, ouvindo assovios, cantadas, absurdos pornográficos. Xingaram os agressores, mas uma amiga lhes disse que pediram para ser tratadas de tal forma, afinal, a roupa que usavam não denotava respeito.
Zaíra. Vinte e dois anos. Usava burca e ainda assim foi estuprada e morta por seis homens. Eles não serão punidos.
Além da violência sexual que sofreram, elas têm em comum o desejo de mudança. Exceto Carla, que sucumbiu ao sentimento de culpa, e Zaíra, brutalmente assassinada, todas as outras aprenderam a gritar, a dizer não. Na garganta, possuem um grito de liberdade, de respeito.
Por elas, pelas irmãs, amigas, afilhadas, cunhadas, vizinhas, sobrinhas, alunas, mães, avós, conhecidas ou não, pelas que nasceram ou ainda vão nascer, elas romperam o limite do silêncio. E insistem em dizer aos machistas, agressores, estupradores, aos que proferem absurdos nas ruas, aos que creem que o corpo feminino é propriedade masculina, que eles não passarão. Que nenhum assédio será tolerado. Que, juntas, elas têm poder.

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