Remoto


Manhã ensolarada, sentimentos, sensações, papel.
O sol era o prenúncio de dias melhores. Entretanto, por mais que a tempestade houvesse cessado e o tempo se apresentasse agradável, ele parecia inacessível a Núria. Seus raios não iluminavam com a totalidade possível, ela não sentia em sua pele o calor abrasador que ele podia provocar.
Anos a fio para poder vê-lo assim: distante. Um calor morno, uma luminosidade opaca.
Enquanto caminhava pela casa, previa um futuro incerto, envolto no furacão de emoções que lhe invadiam o peito. Ali também o sol não havia chegado, apenas o mormaço, um indício de luz.
Relembrava do silêncio, de estar lado a lado e não conseguir se expressar. Nenhum grito, nenhuma palavra. Sem vez. Sem voz. Apenas um nó sufocando-lhe a garganta, retirando-lhe o ar dos pulmões, pressionando-lhe o coração...
Era impossível relatar sentimentos mudos. Por essa razão, o papel continuava em branco, embora o turbilhão quase explodisse dentro de si, um vulcão em erupção.
Ela sabia que nada do que escrevesse englobaria o que aquilo se tornara: inatingível, um vão. A necessidade de falar, de tão grande, ardia, queimava, consumia a si mesma e se extinguia. Pensava, repensava, avaliava e, no fim, só restava o silêncio. Doído. Como quem concorda em cultivar aquilo que fará minguar algo nobre.
Dessa vez não havia lembranças, poemas, dedicatórias, canções. Apenas Núria, uma folha em branco, uma caneta, um misto de sentimentos, sensações e a incapacidade de resumir as emoções em palavras, tendo em vista a grandiosidade de tudo. Do nada.
Talvez amanhã quando o sol nascer. Quem sabe...



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