In essentia
"E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm."
(Fernando Pessoa)
(Fernando Pessoa)
– Mais uma dose, por favor! De palavras. Para externar a vontade e minimizar a angústia e a dor.
Sento na cadeira do Ideal em que me encontro – sim, este é o nome do bar – e me sirvo delas em taças cheias, sem distinção ou pudor.
Sinto-me inebriar enquanto elas percorrem vagarosamente as veias, unem-se ao sangue, aquecem a pele, provocam estímulos cerebrais. Embriago-me...
Não paro. E incansavelmente preencho as taças e saboreio o néctar que delas emana.
Companheiras de uma vida, conselheiras que, de tão costumeiras, se tornaram essência.
Corpo inerte que se move porque elas existem. E renovam, esquentam, abastecem, suprem, acariciam. Libertam.
Certas vezes, amigas. Dignificam. Em outras, carrascas. Açoitam.
Insanas e lúcidas, paradoxais, contraditórias, metafóricas, surreais. Viciantes. Não há tratamento que permita se livrar delas aqueles que as conheceram e se apaixonaram.
As mais nobres das drogas. Invadem, adentram, se instauram. Uma só expressão. Fundem-se.
Bebo delas o quanto necessário e por infindáveis vezes. O garçom já me conhece e não se assusta mais com as visitas inesperadas.
Entre um gole e outro de palavras, viciada, dependente, vou construindo, reconstruindo e demolindo histórias, vidas, pensamentos, ideias e ideais. Arrotando para o mundo verdades tão minhas, tão particulares, falaciosamente compreendidas. Apenas as palavras permanecem. Intimamente unidas a mim, dão sentido à existência. Significam tudo. Persistem. As palavras doces, as palavras esperançosas, as palavras amargas, as palavras saudosas. Palavras para sorrir, palavras para chorar, para homenagear, se emocionar, palavras para viver. Somente elas ficarão quando eu me for.

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