Cárcere


Gregor estava preso, mesmo sem ter cometido crime.
Sentado na cama daquele quarto escuro, ele tentava encontrar razões. Sua mente estava confusa, dispersa. Sua voz era inaudível, não havia ninguém por perto.
Tentava se recordar como parara ali. Em vão. Até onde se lembrava, sempre fora considerado um homem modelo, que respeitava e obedecia as convicções e brigava por elas.
Socialmente era um bom companheiro, bom filho, bom amigo, um bom profissional. Anos a fio cumprindo suas obrigações, executando bem as tarefas que lhe eram conferidas.
Mesmo assim, ele estava preso. Atado a correntes invisíveis, que lhe sufocavam a garganta e como garras afiadas impediam que a voz saísse.
Uma vida baseada em cercar-se de certezas. Uma história permeada pela ausência de questionamentos, pelo costume de se acostumar.
Ele estava trancado em si mesmo, amarrado às suas opiniões arraigadas. Vendado, não percebia que estava se ausentando de si e do que de fato o cercava. Obediente, deixava de perceber que os padrões pelos quais lutava eram pré-estabelecidos e favoreciam somente uma minoria. Que não duvidar do certo era estar propenso à inércia, ao silêncio.
Quantos caminhos e quantas algemas...
A liberdade não fora, nem de perto, alcançada por ele. Suas crenças refletiam o homem passivo que se tornara. Passivo e alienado, com um enumerado de restrições. Mais e mais celas.
Não fora o cara livre que sonhara quando jovem. O fogo que ardia em seu sangue se extinguiu com o passar dos anos, apagando um pouco a cada noticiário assistido, a cada conta para pagar, a cada comodidade cotidiana – essas que nos levam ao nada, sabe?
Contudo, naquele momento, Gregor se sentia incerto. Como se as verdades há tanto conhecidas não fossem tão reais quanto pareciam. Como se elas não fossem capazes de soltá-lo de todas as prisões: físicas, psicológicas, intelectuais e religiosas as quais se submeteu.
E dessa maneira, na incerteza, ele começou a se desprender do que o fazia tão certo – e cego – a respeito da realidade que o cercava, pois se rebelar é também ser liberto.


"Eu posso estar completamente enganado,
Eu posso 'tá' correndo pro lado errado,
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza.
Eu vejo as placas dizendo: não corra, não morra, não fume!
Eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes."

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