Desafogar



Tudo começou com um assalto em 2016. No retorno do trabalho, abordada por dois adolescentes, minha mãe e eu paralisamos. Levaram o celular e, mais uma vez, a tranquilidade de quem já havia passado por situações assim três vezes.
Um dia depois do episódio, uma crise de labirintite me acometeu, sem que o médico conseguisse definir fisiologicamente o porquê, uma vez que não havia infecção alguma no ouvido. As razões apontadas foram o stress ou a situação traumática vivida.
A vida seguiu.
Prossegui com o meu trabalho – era professora de redação na época – ensinando aos meus alunos que era preciso crer em uma mudança social, em uma sociedade que verdadeiramente proporcionasse recuperação e reinserção àqueles que precisam dela.
Em fevereiro de 2017, passados apenas quatro meses do evento anterior, ao retornar para casa depois de mais uma manhã de aulas, o ônibus em que um aluno e eu estávamos foi assaltado.Sentados a uma cadeira de distância dos bandidos, assistimos imóveis ao que ocorria, enquanto eles, armados com facas, diziam que matariam a cobradora se não lhes desse o dinheiro e os passageiros que não tivessem celular. Lembro-me que, nessa hora, a única coisa que conseguia pensar era que eu não tinha mais telefone móvel. Havia sido roubada meses antes. Paralisada mais uma vez, sem esboçar qualquer reação, vi o meu aluno perder a cor dos lábios. Entregamos o que possuíamos, eu tremia e chorava e ele pedia que eu me acalmasse.
Desci na parada sem que conseguisse controlar as minhas pernas. Não as sentia. Até hoje, ao recordar o que houve, ainda sou invadida pelo mesmo pavor do momento.
Desde então, tudo mudou. Ir para o trabalho tornou-se um martírio. As mãos suavam, os batimentos aceleravam, o peito doía, as lágrimas saíam sem que eu conseguisse fazê-las parar. Não foi fácil. Ao término das aulas e ao me ver na rua, eu não sabia bem o que fazer. Quantas vezes pensando qual seria o melhor caminho a tomar, tantos e tantos dias em que eu simplesmente voltei ou travei, pois vi alguém que considerava suspeito... Quanto choro em público, quanta preocupação, quanta tristeza.
O medo verdadeiramente nos trava. Houve dias em que entrei em comércios próximos para perguntar o preço de algo porque não tinha coragem de prosseguir no caminho até a parada. Em outros instantes, desci do ônibus, pois todos – absolutamente todos – pareciam suspeitos. 
Em maio do mesmo ano, mais um assalto ao ônibus que eu voltava para casa. Nem preciso mencionar que isso agravou o meu estado. Não dormia direito e, quando o fazia, sonhava com todo tipo de violência. Passei a ter mais medo de sair à noite ou durante o dia, de estar na rua, de desconhecidos que pedem informação, de viver... Não tendo conseguido um transporte que me buscasse no trabalho, pedi demissão, pois a ideia de estar novamente vulnerável na rua me torturava.
Fiquei um tempo em casa, aparentemente bem, tudo caminhando para voltar à normalidade. Retornei ao trabalho pouco tempo depois. Dessa vez foi diferente, afinal, eu ia e voltava com meu esposo de carro, exceto às quintas. Contudo, apenas um dia era o suficiente para resgatar todo o temor que eu tinha guardado. Agravado por assaltos a pedestres perto da nova escola em que eu trabalhava e por um assassinato na passagem subterrânea pela qual eu tinha que passar, o meu antigo convidado resolveu dar as cartas novamente. Toda semana era o mesmo dilema: voltar de ônibus, rezando para nada ocorrer no trajeto, ou de Uber, e enlouquecer ao entrar no carro de um estranho?
Muitos podem considerar bobagem, mas os pensamentos nos dominam e ditam o que vamos sentir. Para o bem ou para o mal. De tão reais, chegam a ser físicos, palpáveis. Eu posso tocar no pavor. Ele se manifesta no meu corpo. Ele dita as minhas ações.
Este ano, no mês que passou, o meu esposo foi assaltado perto de casa ao ir para o trabalho. Às 5h50 da manhã, teve uma arma apontada para a cabeça dele. Vê-lo desorientado, reavivou em mim o medo, as palpitações, os descontroles intestinais, a preocupação excessiva, o temor. Quando ele está em casa, tudo bem. Quando não, passo o dia trancada, mas isso não diminui a apreensão. Sonho que estão invadindo a nossa residência, que nos pegam dormindo.
É complicado perceber que você não controla o que pensa. Que não consegue parar de imaginar um milhão de situações, todas terríveis, em que você e aqueles que ama são vítimas das piores violências possíveis. Não é fácil não sentir.
Já ouvi que é frescura, que preciso mais de Deus... Já incomodei uma grande amiga com uma crise de angústia que não cessava, sucedida pelo choro tão próprio de tais momentos. Já fiz outra grande amiga me buscar no trabalho nos dias em que não conseguia me mover.
Poucos souberam, poucos se importaram. Muitos acreditaram em todos os sorrisos que eu segui esboçando desde então. Tantos disseram que preciso me tratar – eu sei que sim – mas raríssimos reconheceram que a situação financeira não me permitia buscar uma terapia. Alguns sequer notaram. Até desabafar se tornou penoso, uma vez que não sabemos ouvir sem julgar.
Então, este texto, que a princípio foi escrito como um recurso catártico, agora é direcionado a você que passa por situação igual ou semelhante. Saiba que não é culpa sua, que não é frescura, que não é falta de ligação com algo divino, que não é punição por não procurar a Deus. Primeiramente, é preciso procurar ajuda profissional, mas também é necessário encontrar alguém próximo que o compreenda, que o abrace, que ouça inúmeras vezes o que você tem a dizer. Você não está sozinho, não está louco, não é pior do que ninguém por se sentir assim.
E se uma pessoa neste vasto mundo conseguir entendê-lo e ajudá-lo , compreenda: você é mais sortudo do que imagina.
Que o Universo lhe direcione toda a paz necessária. Que você prossiga e supere. Que tudo fique bem.



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