A escravidão moderna




Há quem diga que o trabalho, por si só, enobrece o homem. Vejo, porém, mentes escravizadas, compelidas a se moldar conforme as regras do sistema. Presencio figuras brilhantes que definham, perdem o vigor, desistem antes do tempo.
Considerando-se inferiores, esquecem-se de enaltecer suas qualidades e habilidades, uma vez que não se encaixam nos moldes propostos e vivem tentando realizar tal feito.
Desde cedo, fomos ensinados a não reconhecer como úteis os saberes empíricos. Podes ser excelente em diversas áreas, mas aí dizem que precisas conhecer e dominar regras e técnicas e, a partir de então, a naturalidade inerente à atividade desaparece e, com ela, o interesse.
Ensinamos as crianças e os jovens que o importante é ser bom em áreas específicas do conhecimento. Repetimos em alto e bom som que "fulano é excelente em português", que "o ciclano domina as regras matemáticas". Sem medo, fazemos com que decorem regras gramaticais, equações e fórmulas que provavelmente não terão aplicabilidade em sua vida adulta.
Criamos pessoas que se adaptam ao sistema, que respondem corretamente às questões propostas, que crescem e se adequam ao mercado de trabalho. Não é necessário raciocinar, somente aprender a obedecer, e isso é simples.
Assim vamos vivendo: executando tarefas, cumprindo demandas, chegando em casa exaustos, sem tempo para conversas ou leituras; dormindo profundamente e acordando no outro dia, no mesmo horário determinado, para reiniciar o ciclo.
Sem perceber, tornamo-nos reféns das tarefas que nos são incumbidas, transformamo-nos em coisas. Passamos a ser o trabalho que exercemos, o dinheiro que ganhamos. E trabalhamos mais, pois estamos sempre precisando de grana.
Vendemos as férias, fazemos hora-extra, trabalhamos aos finais de semana...Cada vez mais infelizes, reclamamos da rotina. Já não temos tempo para admirar o pôr-do-sol e nem para olhar as estrelas. O saldo bancário não permite viagens, pois nunca há crédito suficiente.
Em casa, substituímos a presença por presentes. Não temos tempo para dialogar com os filhos. Dizemos sim aos seus pedidos e atribuímos às escolas a responsabilidade de educar. Elas, em grande parte, seguem formando pessoas que escutam, memorizam, repetem e exercem. Alimentam outras instituições sociais e reabastecem o mercado, que explora a força e também a energia.
Pouco a pouco, retiram de nós o viço, a beleza, a calma, o amor pelo que fazemos. Restam, então, humanos mecanizados, desprovidos de criticidade sobre si, sobre o outro, sobre as demandas e sobre o próprio emprego, que diariamente se torna um fardo, uma prisão.


Fim da meia hora de almoço. Hora de voltar ao batente.




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