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Renovação

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O início de um novo ano é o momento que nos permite repensar o que vivemos, rever nossas atitudes, traçar novas rotas e partir na direção do que acreditamos e sonhamos. Mais do que isso, é um respiro que nos leva a crer que não há continuidade, mas sim renovação e que, como num passe de mágica, tudo tem a chance de ser diferente. A verdade é que essa transformação é possível. Não sob a ótica ilusória que nos faz crer que, com a mudança no calendário, milagrosamente todos os obstáculos, defeitos, problemas e dificuldades que vivemos desaparecerão. Essa sensação é bonita e nos alivia, mas também representa um campo perigoso ao nos fazer depositar apenas nos dias ou no acaso a tarefa de nos tornar felizes e realizados. Este objetivo é nosso e depende de nós torná-lo real. E é através dos dias que nós, responsáveis pela condução da nossa vida rumo às metas que estabelecemos, construiremos a estrada que nos levará ao que almejamos. Diante de uma frustração por não conseguir estudar o quanto...

A invisibilidade materna

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  Reprodução: Megan Jacobs (Projeto Hidden Mothers) Dizem que ao nascer um filho, nasce também uma mãe, e é verdade até certo ponto. Algumas mais dispostas para essa missão do que outras, mas a grande verdade é que ninguém está pronta para criar, educar ou prover tudo o que um bebê precisa. Aprender a trafegar pelas estradas da maternidade demanda tempo, esforço e muita paciência. O amor aumenta a cada dia e gradativamente é possível lidar com os desafios que surgem. Os problemas do início, pouco a pouco, se transformam em mais obstáculos vencidos – entre tantos que ainda virão. Entretanto, ao me tornar mãe descobri que adquirimos um poder: o da invisibilidade. Não, este superpoder não nos permite ficar invisíveis a cada palpite maldoso que nos é dado, infelizmente. Então explico: saímos do hospital com o grande dom de nos deixar para trás em prol de um serzinho indefeso que acabou de nascer. É difícil nos reencontrar e olhar para nós mesmas. É muita responsabilidade nos ombros ter...

Para o meu pequeno Theo

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Chegamos em abril, meu filho. A nossa jornada, essa que durou rápidos nove meses, está chegando ao fim. Orgulho-me do trajeto que traçamos e da doce caminhada que fizemos até aqui, incluindo cada mudança – corporal e psicológica – bem como os chutinhos, o reconhecimento da minha voz e todas as alegrias que este período me trouxe. Sei que para nós a sua chegada marcará o início de um novo tempo, mas também reconheço que, por sua causa, já somos outros. Ah, se você soubesse o efeito que tem sobre nós, meu pequeno... A sua existência, desde a primeira vez que ouvimos o seu coração bater, nos tocou e transformou profundamente. Ali deixamos de ser só seu pai, eu e as nossas certezas tão incertas sobre a vida. É fato que hoje sabemos muito menos sobre o mundo, temos receio de tudo e nos preocupamos mais, mas amamos infinitamente também. E é surreal amar tanto alguém que nem se viu ainda. Daqui a algumas semanas, nós nos encontraremos pessoalmente. O primeiro encontro de uma vida int...

Carta para o meu pai

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Samambaia, 17 de julho de 2018. Amado pai, quanta saudade... Já faz um ano e nove meses desde a sua partida. E de lá para cá, quanta coisa mudou... Há um ano não moro mais na casa onde cresci ouvindo o senhor cantar os nossos boleros favoritos.  Claro que todos os dias apareço para ver como a mãe está e para lhe fazer companhia, ouvir suas histórias, seus lamentos e para lhe dar um pouco de alegria. Não tem sido fácil para ela, os dias têm sido trabalhosos, saudosos, difíceis. Creio que ela sente mais a sua falta do que jamais imaginou ser possível. Eu sigo o mesmo rumo. Acredito que a sua partida tenha me ensinado mais sobre amor do que os trinta e um anos que partilhamos. Quando estamos do lado de cá, tudo parece tão infinito, não é? Os dias parecem infindos, não há urgência para dar amor, afinal, temos todo o tempo do mundo. Hoje sei que não é assim. Não digo isso com arrependimento, pois tive tempo de dizer o que precisava para o senhor e sei que me ouviu. Também sei q...

Desafogar

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Tudo começou com um assalto em 2016. No retorno do trabalho, abordada por dois adolescentes, minha mãe e eu paralisamos. Levaram o celular e, mais uma vez, a tranquilidade de quem já havia passado por situações assim três vezes. Um dia depois do episódio, uma crise de labirintite me acometeu, sem que o médico conseguisse definir fisiologicamente o porquê, uma vez que não havia infecção alguma no ouvido. As razões apontadas foram o stress ou a situação traumática vivida. A vida seguiu. Prossegui com o meu trabalho – era professora de redação na época – ensinando aos meus alunos que era preciso crer em uma mudança social, em uma sociedade que verdadeiramente proporcionasse recuperação e reinserção àqueles que precisam dela. Em fevereiro de 2017, passados apenas quatro meses do evento anterior, ao retornar para casa depois de mais uma manhã de aulas, o ônibus em que um aluno e eu estávamos foi assaltado.Sentados a uma cadeira de distância dos bandidos, assistimos imóveis ao que oc...

Meio cheio, meio vazio

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Ontem à noite, com o rosto em meio aos travesseiros, eu chorei. Mais uma vez. Uma a uma, as lágrimas saíam para aliviar o que as palavras já não eram capazes de dizer. Durante o dia fingi ser feliz, mas à noite isso já não era necessário. Ali, na escuridão do quarto, onde mais ninguém esperava que fosse forte, amável e paciente, onde ninguém me pediria para ter fé, eu chorei. Porque a vida já não bastava e os dias não eram bons. Porque camuflar a tristeza e esboçar um sorriso oco dilacerava o coração. No canto do quarto, entre os não-ditos que angustiavam e a incerteza do amanhã, entre os milhões de pensamentos e o silêncio gritante, entre a indiferença e a escuridão, eu chorei. Desabei em mim, reuni minhas dores e as celebrei com lágrimas. Sem platéias, sem perguntas desinteressadas, sem falsas preocupações. Apenas uma mulher, suas misérias e a água que lhe escorria pelos olhos. E nada mais - mesmo que esse nada signifique tanto. 

Stronger

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Sexta à noite, um café, uma boa música. Entre um acorde e outro, Núria refletia sobre a sua capacidade de recomeçar. Escutando a letra da canção que dizia "you shoot me down, but I get up", ela pensava em todas as vezes que precisou se reerguer e continuar. De cabeça erguida e de coração dilacerado, insistia em prosseguir, mesmo debaixo de maus ventos, de tempestades e dos olhares alheios. O fato é que o mundo não esperava a sua completa reconstrução: era preciso ser filha, amiga, profissional, parceira. Era necessário esboçar um sorriso, camuflar a tristeza, engolir o choro e afirmar que sim, estava tudo bem. Aos poucos, e de tanto repetir, a informação ia se tornando verdade, criando uma crosta que escondia as feridas alcançadas ao logo do caminho. As marcas, entretanto, permaneciam lá, trazendo aprendizados, tornando o passo mais firme e a cabeça menos sonhadora. Ao final de mais um dia de expediente, ela concordava que ser adulta implicava se reinventar diar...